Saturday, September 22, 2007

Lancelot - O Cavaleiro Da Charrete


Chegou o dia. A pedido do público.



Traição. Intrigas. Mentiras. Sexo. Anões. Não é nenhuma novela nova, e a história do Cavaleiro da charrete.

Quem quiser o roteiro inteiro, é só baixar do projeto Gutenberg, ou em outro site já em HTML. Não digam que não avisei.

A historia de o cavaleiro da charrete não é outra que a de Lancelot e Guinevere, onde é consumada a traição ao rei Arthur, e começam os encontros e desencontros do casal.

Tudo começa com a visita de um cavaleiro armado ao castelo de Camelot, para reclamar para si as terras e pessoas que moravam nas terras que considerava do seu dominio. Este cavaleiro não disse quem era, mas afirmou que ninguém tiraria dele o que tinha ganho. Não havia no reino pessoa valente o bastante para enfrentá-lo.
Ele ainda lançou um desafio: quem acreditasse que poderia vencé-lo devia buscá-lo em uma clareira do bosque perto de Camelot. Quem fosse desafiá-lo, devia levar a rainha Guinevere com ele para disputá-la em justa luta; se o defensor de Camelot ganhar, poderia devolver a rainha ao seu lugar, e voltar com a honra de devolver as terras e pessoas para o rei. Se perder, a rainha iria embora com este cavaleiro desconhecido para suas terras distantes, onde não seria possível resgatá-la.
De forma infantil, o rei concorda com o primeiro tosco que se oferece para tal tarefa, que perde miseravelmente. O otário foi o senescal Kai; pelo menos o sobrinho favorito do rei Arthur, Sir Gawain, foi o único que pensou direito e seguiu Kai, junto com outros cavaleiros.
Infelizmente o grande Gawain não chegou em tempo de salvar Kai. Somente viram o cavalo dele com a sela arrebentada, e manchas de sangue. Outro cavaleiro veio da clareira, correndo no seu cavalo até o fim das forças do animal. Pediu outro cavalo para Gawain, que gentilmente o cedeu dos cavalos que levava com ele; assim que este cavaleiro pegou esta nova montaria, agradeceu, e saiu ao galope novamente. Gawain achou isto tão estranho que decidiu seguí-lo.
Finalmente o achou em uma clareira, hesitando se subia ou não na charrete de um anão; nessa época era uma das maiores desonras ser levado em uma charrete, pois era o transporte onde os condenados a morte eram expostos ao povão antes da execução. A questão é que este cavaleiro não estava no seu juízo fazia mais tempo do que ele lembrava, e após hesitar duas vezes subiu na charrete, com a condição de saber da rainha. Esta oferta foi feita ao Gawain também, mas respondeu que tinha boa montaria, e que seguiria o charreteiro onde ele fosse sem pra isso se humilhar. Lembrem deste fato, é importante para o que virá mais à frente.

Eles chegam a um castelo, onde no dia seguinte puderam ver a rainha sendo levada para terras distantes. O cavaleiro da charrete desfaleceu e tentou se suicidar, mas Gawain o impediu. Gawain e o cavaleiro da charrete seguiram juntos buscando resgatar a rainha, e se separaram em uma encruzilhada do caminho, escolhendo cada um uma senda para chegar até estas terras distantes. Ambos os caminhos levavam a um destino perigoso, enquanto Gawain foi para a passagem pela ponte sob-a-água, o cavaleiro da charrete foi para a passagem pela ponte da espada. Esta ponte era como o gume de uma espada, e dava passagem para as terras do rei Bandemagus.
Mas quem surripiou a rainha não foi Bandemagus; quem fez essa sacanagem foi seu filho Meleagant, um cavaleiro com porte de brucutu e nada gentil. Pelo menos seu pai o impediu de por as mãos na rainha, para não piorar a situação; Bandemagus deu abrigo para a rainha e garantiu que nada lhe faltasse no seu exilio até ser resgatada. Bandemagus era um rei bom e honesto, mas seu filho estragava isso tudo constantemente.

Então, Lancelot, nosso cavaleiro da charrete, superou desafios dos mais variados, sempre com um objetivo em mente: liberar a rainha Guinevere do seu captor, e tirá-la do exilio. Ele foi o primeiro a atravessar a ponte da espada; se feriu gravemente, mas ganhou a admiração e respeito de Bandemagus, quem o ajudou daqui em diante na sua missão. Mas não foi apenas a ponte que Lancelot teve que superar. Foram batalhas, magias, e até teve que resistir a tentação de belas moças bastante dadas (uma delas na verdade até deitou com ele, mas nada aconteceu porque ele não quis).

Teve ele culpa de se apaixonar assim pela rainha? Ele traiu a confiança do seu rei, e o voto de cavaleiro, enquanto a rainha traiu a confiança do seu rei e do seu marido. De fato, não foi uma paixão, entre eles havia amor genuíno. Faz isso ficar diferente o adulterio da rainha? Pode Arthur culpá-la de se apaixonar por outra pessoa? Para deixar a novela mais complicada: seria possível para uma Guinevere amar Arthur e Lancelot, por motivos diferentes? Existe o homem perfeito, ou a mulher perfeita?
Não quero com isso defender ninguém, mas o que mais curto dessa história é a dificultade e o realismo dos personagens para enfrentar dilemas totalmente humanos. Teria sido facílimo para Lancelot possuir qualquer mulher que tivesse vontade de ter; em um torneio conseguiu a façanha de que todas as solteiras desejasem casar com ele, e nenhuma casou nesse ano por causa dele, porque não havia cavaleiro como ele no torneio (olha aí o macho-alfa... né Andrea?). Sendo assim, quem pode culpar a jovem Guinevere de ter se encantado por ele? Mas nisso tudo tanto Lancelot quanto Guinevere nunca são plenamente felizes; a culpa, o remorso e o medo de ser descobertos são seus companheiros constantes.
Primeiro Chrétien, depois Malory, ambos descreveram maravilhosamente os conflitos internos destes dois personagens apaixonados; tudo começa aos poucos, e envolve o leitor ao ponto de não conseguir guardar o livro para depois. Você quer saber o fim, o desenlace da história.

E no que diz aos MEUS leitores... vocês aguentam até a semana que vem para saber o fim da história????? Como eu sou mau as vezes...

Semana que vem: Guinevere entrega sua flor para outro jardineiro!!!!



Saturday, September 15, 2007

Chrétien de Troyes

Romances da Távola Redonda

A semana passada não consegui postar, como expliquei no breve comentário que pendurei. Somente cheguei em casa no Domingo à noite, e assim não tive como pesquisar, e ainda menos postar. Pedidas as desculpas e dadas as explicações, posso contar um pouco sobre o post de hoje, e a pesquisa que venho fazendo já faz um par de horas.
Levei dois livros comigo na viagem para Buenos Aires, porém meu tempo livre para leitura (no avião, por exemplo) se concentrou em apenas um deles, "Romances da Távola Redonda" de Chrétien de Troyes. Decidi falar do autor, ou melhor, do trabalho dele e do esforço para conhecermos hoje sobre seu trabalho.

Este livro contém quatro histórias, duas resumidas e duas completas:

Eric e Enide;
Cliges, ou a que se fingiu de morta;
Lancelot, o cavaleiro da charrete;
Ivain, o cavaleiro do leão.

Ele deve ter nascido por volta de 1135 em Champagne, perto da região de Troyes. Ao todo escreveu 7 trabalhos, 6 deles dedicados à lenda arturiana, onde os quatro mencionados acima compõem o ciclo amoroso do autor. É uma pena que até hoje não foi achado o primeiro Tristão, com certeza de autoria dele.

Chrétien é tido como maior autor e símbolo da era medieval e dos romances arturianos franceses, conhecidos também como romances corteses. Devemos a ele a introdução de personagens fundamentais, como Gawain e Lancelot; e da mente dele surgiram partes da lenda tão importantes como o graal, e o nome do reino do rei Arthur, Camelot. Até então, ninguém tinha dado nome às terras de Logres.

Uma coisa que é certa na vida de Chrétien é que trabalhou alternadamente sob dois patronatos, a corte de Champagne e a de Flandres. A corte de Champagne devia ser muito tentadora pela figura da rainha Leonor de Aquitânia, uma mulher de cultura esplêndida. Embora não tenha conseguido o protetorado da rainha Leonor, acabou chegando a Champagne através do patronato de Marie, filha de Leonor, quem propôs para ele o desafio de escrever a historia de Lancelot, o cavaleiro da charrete. Ele não terminou esta historia, que foi finalizada por um contemporâneo dele mas de talento muito menor, chamado Geoffroy de Lagny.
Com a morte do seu patronato em 1181, Chrétien buscou amparo em Flandres, que mantinha relações assíduas com Champagne, e era provavelmente a corte mais rica e predisposta a colaborar com pessoas dedicadas a empreitadas de cunho artístico. Foi lá que empreendeu o trabalho de escrever Perceval, mas que infelizmente não finalizou, falecendo antes de concluí-lo. Quatro autores de talentos variados completaram a obra, acrescentando umas 54000 linhas aos 9000 versos escritos por Chrétien.

Os livros dele foram escritos em verso, com uma poesia em versos de 8 sílabas, cujas rimas acontecem em pares. Estes versos foram compostos em francês antigo, criando um precedente na literatura; até então, estes textos eram compostos em latim. A riqueza destes versos ainda é percebida nas traduções que vieram depois, até na conversão do texto para o formato de prosa.

O livro que tenho em mãos é uma tradução ao idioma português, em formato de prosa. Este livro tem uma ótima introdução, explicando contextos históricos e descrevendo de maneira preciosa a riqueza do texto de Chrétien. É verdade que perdemos muito ao passar um texto em versos para um formato contínuo como a prosa, mas acho que perderíamos muito mais em uma pobre tradução de versos apenas para criar rimas tolas. Isto já acontece só de traduzir os versos do francês antigo para o moderno; ainda assim, o talento de Chrétien transparece e sobrevive a todo este processo, e podemos sentir em alguns momentos na leitura a existência de um texto muito mais rico, uma presença maior que aquela composta apenas pelas palavras à nossa frente.


Como traduzir versos assim?

Cerf chassé qui de soif alainne
ne désire tant la fontaine
n'éperviers ne vient à reclain
si volontiers, quand il a faim
que plus volontiers ne venissent
A ce que nu entretenissent...

(Cervo acossado que de sede ofega /
não deseja tanto a fonte / nem gavião
retorna ao reclamo /de tão bom grado,
quando tem fome / como (os amantes)
desejam /se conhecer nus...)


E termina com:

En ce vouloir m'a mon coeur mis
- Et qui le coeur, beau doux ami?
Dame, mes yeux - Et les yeux qui?-
La grand beauté qu'en vous je vis

(Nesse querer meu coração me pôs /
- E quem pôs o coração, mui doce amigo? /
- Meus olhos, Senhora / - E quem pôs os olhos?
/ - A grande beleza que vi em vós.)

É por este motivo que a prosa vira nossa aliada neste trabalho, dando aos tradutores a possibilidade de trazer a poesia nas palavras, e não nos versos.

Os Manuscritos


O trabalho de um grupo de pessoas em compilar e recopilar os poucos manuscritos que sobreviveram até hoje permite comparar as edições da época medieval das histórias de Chrétien; este trabalho ganhou o nome de Projeto Princeton Charrette. Não vou contar muito mais sobre o projeto aqui (para isso o link), mas só posso dizer que me admirei muito de poder comparar os versos dos manuscritos com o livro que tenho em mãos, e vou compartir com vocês essa experiência nos próximos parágrafos.

Lancelot

A história do cavaleiro da charrete conta a lenda de Lancelot, e sua busca pela rainha Guinevere em terras distantes. Suas crenças e devoção pela rainha são colocadas à prova várias vezes na história.
A tal charrete tem participação apenas no começo da história, e representa o tropeço de Lancelot durante sua busca. Os presidiários e pessoas condenadas eram levadas de charrete em lugares públicos, para provocar escárnio. O amor de Lancelot é colocado à prova ao ser convidado a subir na charrete para obter informações de sua querida rainha, e após hesitar uns segundos, ele decide se submeter a isto com tal de conseguir cumprir sua busca. Cabe mencionar que o nome de Lancelot foi revelado com a história bem avançada, mais ou menos pelo verso 6000. Até então, era apenas um cavaleiro sem nome.

Como disse há pouco, é muito interessante comparar os manuscritos originais com os textos traduzidos para o português. No começo da história, é revelado o vilão desta forma:

A tant ez vos un chevalier
Qui vint a cort molt acesmez,
De totes ses armes armez.
Li chevaliers a tel conroi
S'an vint jusque devant le roi
La ou antre ses barons sist,
Nel salua pas, einz li dist:
Rois Artus, j'ai en ma prison
De ta terre et de ta maison
Chevaliers, dames et puceles,
Mes ne t'an di pas les noveles
Por ce que jes te vuelle randre;
Einçois te voel dire et aprandre
Que tu n'as force ne avoir
Par quoi tu les puisses ravoir;
Et saches bien qu'ainsi morras
Que ja aidier ne lor porras.
Li rois respont qu'il li estuet
Sofrir, s'amander ne le puet,
Mes molt l'an poise duremant.


Em português "prosa", ficou assim:
Sobreveio então um cavaleiro armado com todas as armas. Assim aprestado, caminhou até diante do rei. Não o saudou, apenas disse:
Rei Arthur, retenho em meu poder uma parte da tua terra e da gente da tua casa: cavaleiros, damas e donzelas. Mas não te dou tais novas com intenção de os devolver. Ao contrário, quero informar que não tens força nem bem com que os possas reaver. E fica sabendo que morrerás sem os conseguir socorrer.
O rei responde que terá de sofrer tal desventura, já que não lhe pode remediar. Grande porém será seu pesar.
...

O legal disso é que mesmo quem não conhece ou domina o francês, consegue encontrar a beleza dos versos escondida na tradução, e confirma isso ao ver o texto original.

O que não entendi da história é o preconceito com os anões. É um fato constante durante todas as histórias que os anões são sacanas, e Chrétien não foi nem um pouco delicado para descrever isso:

Li chevaliers a pié, sanz lance,
Aprés la charrete s'avance
Et voit un nain sur les limons,
Qui tenoit come charretons
Une longue verge an sa main.
Et li chevaliers dit au nain:
Nains, fet il, por Deu, car me di
Se tu as veü par ici
Passer ma dame la reïne.
Li nains cuiverz de pute orine
Ne l'an vost noveles conter,
Einz li dist: Se tu viax monter
Sor la charrete que je main,
Savoir porras jusqu'a demain
Que la reïne est devenue.


E na tradução:

O cavaleiro a pé, sem lança, aproxima-se então da charrete e vê sobre os varais um anão que segurava como um charreteiro uma longa vara na mão.
Diz o cavaleiro ao anão:
- Anão, dize-me, por Deus, não viste passar por aqui minha senhora a rainha?
O anão, filho da p_ _ _ , não quis lhe dar novas, mas respondeu:
- Se quiseres subir na charrete que conduzo, podereis saber até amanhã o que foi feito da rainha.

Então.. eu disse para mim mesmo, "Isso aqui foi erro de tradução. Nem a pau chamaram o anão de filho da p_ _ _ no original, imagina!!". Não é que me enganei? Olhem só o texto a partir do verso 347:



Seus comentários abaixo. Semana que vem: Lancelot e Guinevere, ou o conto do cavaleiro da charrete!!

Saturday, September 1, 2007

5 inventos, 5 histórias

Seguindo no embalo de outros blogs que falaram sobre invenções, tive a idéia de falar sobre invenções que usamos até hoje, mas que foram criadas na época medieval. Afinal, este é um blog temático...

Óculos

Os manuscritos mais antigos falando de óculos datam de 1286. Nesse tempo, Sandra di Popozo escreveu em um tratado florentino que "estava tão debilitada pela idade, que não conseguiria enxergar os vidros conhecidos como óculos". A verdade é que os italianos levaram a fama como inventores dos óculos, por causa do sucesso de vendas, e da armação para manter ambas lentes unidas, mas as primeiras referências a lentes chegam até Confucio, no ano 500.

Carrinho de Mão

Sim, já sei, os chineses fizeram primeiro. Mas no caso deles era apenas uma caixa de madeira com uma roda embaixo, o que devia ser terrível de usar em terreno acidentado. A "elegância" de uma caixa com uma roda na frente e longos braços para manobrá-la apareceu lá pelo século 13, pelo menos o que dizem nos quadros pintados na época, o que nos leva até outro item:

Pintura à Óleo

Neste caso um flemish conhecido como Jan van Eyck foi quem conseguiu uma mistura estável de témpera (guache) e óleo, o que deu não somente novos matizes à pintura, como também uma duração extraordinaria.

Relógio Mecânico

Os grandes relógios usados nas torres das catedrais eram movidos por peso, de maneira semelhante aos relógios de pêndulo. Estes relógios apareceram por toda a Europa mais ou menos no mesmo período, entre os séculos 13 e 14.

Compasso

Tá, estou trapaceando. O magnetismo não é uma invenção humana, e a bússola foi inventada provavelmente pelos chineses. Ainda assim, os compassos secos, usados para navegação, apareceram no Mediterrâneo por volta de 1300. Antes disso só temos a menção de compassos em 1190, em documentos feitos em Paris. Para compensar a trapaceada, vai a sexta invenção:

Botões

É! Os botões da roupa, método pratiquíssimo para prender duas peças de roupa ou duas partes do tecido de maneira rápida foi inventada por alemães no século 13, adotadas rapidamente no resto do agora velho mundo, e mantemos conosco até hoje. Engraçado como esses inventos simples não deram a fama para o inventor, e mesmo assim não imaginamos um mundo sem elas, não é?

Período Criativo

O período medieval nos deu outras invenções curiosas:

Quarentena
Colar para animais de tiro (cavalos, bois)
Ferraduras
Tear horizontal
Arado
Espelhos
Marca de Água
Moinho de vento
...

E o Arthur, onde fica?

A lenda arturiana já é uma invenção por si mesma. Nela vemos inventadas grandes lutas, dragões, mágica, personagens cheios de história e sentimentos. Mas, se é por falar de coisas que de fato existiram e podemos chamar de invenções, gostaria de colocar estas cinco na minha lista:

1) A domesticação de animais

O que seria do homem, se não tivesse descolado um jeito de criar animais para obter leite, carne, ovos... para se locomover mais rapidamente, ou levar cargas maiores... como armas de guerra que virariam o rumo das batalhas... e como companheiros de aventuras, claro!

2) Os Castelos

Moradias, refúgios ou fortalezas, os castelos tiveram um papel fundamental na idade média, como símbolo de poder e pivô central na formação de cidades poderosas durante o período feudal. Obras de engenharia que se adaptaram ao tempo, os castelos serviram para funções tanto bélicas como pacíficas. Aliás, foi um dos meus primeiros posts, ou não?

3) As Justas

Adrenalina, testosterona e falta de inimigos que prestem renderam ao período medieval a oportunidade de brincar em lutas mais sérias organizadas de maneira esportiva, para satisfazer a necessidade dos cavaleiros de se mostrarem, e ao mesmo tempo servir de treino e entretenimento para "a galera". Quero MESMO ver uma dessas acontecendo, e a oportunidade ainda existe, mas não é aqui ao lado. Ainda é praticado na Alemanha o torneio de cavaleiros de Kaltenberger; vejam o site no link, e busquem videos no youtube. Vale a pena.

4) As armaduras sólidas

Quente. Sufocante. Pesada. Imobilizante. Assim era a armadura medieval, e era o melhor lugar para ficar em uma batalha em campo aberto. Era ela que decidia entre a vida e a morte dos guerreiros, e ganhou fama e detalhes para reconhecer os grandes lutadores... até aparecer a pólvora. Aí que acabou a brincadeira, e as muralhas do castelo eram mais necessárias do que nunca.

5) Armas de sitio

Não sei exatamente o motivo, mas as catapultas, os trebuchets e os arietes me causam um fascínio enorme. Depois dos elefantes do Alexandre o Grande, foram as primeiras armas no campo de batalha apropriadas para invadir construções amuradas, e estabelecer cercos, sitiando o inimigo e forçando o confronto. Os gregos entre outros povos antigos tinham grandes armas de guerra, mas foi a época medieval que deu o destaque a estas grandes peças de engenharia. Mais tarde, a evolução da guerra levaria à invenção dos tanques de guerra, os canhões, os submarinos... Não gosto da guerra, mas infelizmente ela é um dos principais motores para investimento em tecnologia. Desde os reis antigos até os governantes de hoje em dia, o fato de estar em guerra faz investir irrestritamente em invenções e descobertas tecnológicas, com o puro objetivo de ganhar a corrida armamentista. Estas descobertas, embora aconteceram por fins bélicos, acabam fazendo diferença nos tempos de paz, quando estes investimentos não acontecem. Coisas tão simples quanto a caneta bic foram inventadas assim, quando as canetas a tinta convencionais vazavam na cabine dos pilotos, e os lápices quebravam as pontas. A necessidade motiva a descoberta.

Ahhhh.....

Sim, suspiro de desilusão. Não falei das moças da lenda, como "minhas leitoras" pediram, e foi por verdadeira, total e absoluta falta de tempo para pesquisar. Morgana, Gueinevere, Nimue, nenhuma delas tem um livro próprio, e a pesquisa em vários livros consome um tempo que não tive, portanto peço desculpas por trair essa expectativa. Nesta semana vou estar ocupado também, portanto lá sei vai a minha possibilidade de postar na semana que vem sobre qualquer moçoila épica devassa (ou não). Vou viajar a trabalho, e quero levar comigo alguma literatura para preparar um post nos momentos vagos. Com certeza vou levar "O último reino", de Bernard Cornwell, que fala sobre as lendas nórdicas, mas vou levar também algum outro livro arturiano, que ainda não decidi.
Espero que tenham gostado da leitura, e quero comentários até a próxima semana!!!




Friday, August 31, 2007

Blog Day. Bad Day?

Tentei. Juro. Depois de mais de uma hora buscando através dos links no meu profile, não consegui achar um blog ativo sobre as lendas arturianas para incluir na lista. Achei alguns blogs com nomes sugestivos, como Camelot's Garden ou The Pendragon, mas onde o primeiro teve apenas um post em 2004, e o segundo nada tem a ver com as lendas arturianas.
Por outro lado, encontrei vários blogs que colocaram notas sobre o filme King Arthur, mas até aí é apenas um comentário, dentro de um monte de assuntos diferentes.
No fim, meu blog day serviu ao propósito de conhecer blogs que nunca tinha visitado; somente deu errado no fato de que não voltarei a visitá-los.
Então, não é por me gabar, mas pelo jeito o único blog sobre lendas arturianas.. é o meu. Oh responsabilidade...

A pergunta que fica é: Quantos endereços de blogs existem, e quantos estão ativos para valer?

Sunday, August 26, 2007

About: Me

Semana diferente, post diferente. Hoje vou falar de como virei um "arturólogo", no sentido da coisa.

Wally e Sua Vida



Janeiro de 1999. Eis que chego no Brasil, com a idéia de ficar por aqui uns 3 anos, a trabalho. Todas minhas decisões sobre que apartamento alugar, que carro comprar e o que comprar para mim ou o apê onde morava eram baseadas nessa perspectiva, tudo muito pé no chão.

Meus começos na vida de solteiro independente foram muito bem sucedidos; me virei sem problemas na cozinha, cuidando das minhas roupas e demais faxina da casa. Tudo nos conformes.
Até então, toda minha formação era profissional, portanto todo o material que caia nas minhas mãos para leitura era sempre orientado a tecnologia. Eu não sei exatamente em que momento desse mesmo ano que tive uma percepção interessante. Percebi que tinha me especializado muito em coisas como tecnologia, programação, informática, eletrônica, mas nunca tinha cuidado de outros aspectos. Era um completo ignorante sobre outros assuntos, o que me tornava uma pessoa sem muito assunto :-)
Pensei, dentro do meu lado racional:

"Pessoas como Arquimedes, Pitágoras, Da Vinci, Galileo, todos eles foram grandes gênios da engenharia. Engenheiros não são populares. O que fez deles serem lembrados até hoje, além de suas descobertas?"

Percebi que além de uma mente brilhante, eles deram conteúdo e espaço nas suas mentes tanto para as ciencias exatas como as humanísticas. Da Vinci fez pesquisas admiraveis sobre o voo, mecânica e matemática, e ao mesmo tempo pintou a MonaLisa. Galileu, além de falar que a terra girava em torno do Sol (o que faz dele um astrônomo respeitabilíssimo), foi um dos maiores religiosos da sua época. Fatos semelhantes aconteceram com todos os grandes nomes das ciencias exatas. Eu posso não ser um gênio, mas percebi um fator comum que decidi colocar na minha vida também. Decidi alimentar meu lado humanístico.

O problema clássico era que leitura realmente não era uma as minhas paixões, nem de perto. Então, mais uma vez pensando analiticamente (que era meu único jeito de pensar) disse para mim mesmo que precisava encontrar um assunto que me atraísse por merito proprio, que me despertasse curiosidade ao ponto de merecer pesquisar por ele. Depois de boiar um pouco mentalmente, percebi que a idade média me chamava particularmente a atenção. O cavaleirismo especialmente. O fato de fazer dos cavaleiros pessoas respeitadas e admiradas era sua devoção e desprendimento para ajudar os outros, empreender em buscas épicas, e logicamente, ganhar a atenção das damiselas (afinal, ninguém veio ao mundo a passeio...).

Qual é o exemplo mais popular, mais conhecido e grandioso da arte da cavalaria na idade média? Chegamos no assunto. Ia pesquisar a lenda arturiana.

Meu primeiro livro me desapontou bastante, não por ser ruim, mas por vir com a descrição "texto para jovens". Além de brega, cafona e antiquado, tinha apenas 86 páginas. Eu sabia que tinha que ter mais, uma lenda que perdura até hoje não se condensa a tão pouco. Ainda assim, era a única coisa que consegui na epoca, com meu pobre conhecimento de autores. Cai num quase caderninho contando um resumão da lenda, baseado no texto de Thomas Malory, o que no fim foi bastante bom por me dar não somente o nome do autor, como uma visão geral de onde estava entrando. Hoje posso dizer que esse livrinho serve quase que como índice da viagem que veio depois. Foi através de Malory que conheci Chretien de Troyes, que me levou para Geoffrey de Monmount.
Coincidentemente, poucos anos depois percebi que entrei no mar no momento que o mar estava crescendo. Um interesse súbito surgiu no mundo inteiro sobre o Rei Arthur, e ocasionou novas pesquisas que mudaram por completo a visão do mundo. Arthur não era mais um rei medieval; ele virou um general romano no século 5, que comandou os bretões para manter os invasores saxões abaixo da linha imposta pela muralha de Alexandre. Isso rendeu até filmes, mas o verdadeiro triunfo dessa historia foi inspirar autores como Bernard Cornwell a escrever sua trilogia sobre o Arthur. Uma novela que merecia uma minisérie, como já aconteceu com seus textos sobre um soldado inglês de nome Richard Sharpe.
Minha admiração por autores me levou a ler outros trabalhos, não mais vinculados somente à lenda arturiana, mas não por isso menos interessantes. Meu lado humanístico tinha acordado para a vida.
Meu blog começou faz pouco tempo, com a consciência vida da observação de que muitos blogs não seguem a linha do "meu pequeno diário de segredos adolescentes", mas aproveitam a facilidade de uma interface amigável para colocar conteúdo de muito valor cultural. Opiniões divergentes geravam debates muito mais maduros do que as idiotices que me levaram a aborrecer o Orkut eu suas comunidades sem sentido. Ainda assim, o mérito do Orkut é divulgar blogs e localizar pessoas com interesses parecidos, mas foi-se a época na que compensava dedicar um tempo a ele. O ponto de encontro do momento são os blogs (ao contrario do que todos os jogadores de Second Life afirmam).
Namorei a idéia de criar um site ou blogar ao respeito das lendas arturianas quando percebi como todo o conhecimento que ganhei nesses anos estava espalhado. Era uma idéia bem interessante escrever tudo em um lugar só, e poder vincular uma história com a outra, dando no fim uma amarração coerente na historia toda. Assim, depois de um tempo olhando a evolução da web para o que conhecemos hoje, que decidi começar com Camelot or What, e até agora, posso me considerar um blogger satisfeito com o resultado.


O que tem um peso enorme neste blog e que o diferencia de outros é o esforço de pesquisa em meios variados para dar uma visão geral do assunto, sem cair na armadilha de escrever um monte de chatice. Quero trazer a lenda arturiana de maneira leve, que sirva como entretenimento nas horas vagas de quem cai no blog, seja por acaso ou indicação. Logicamente, o maior elogio que um blog pode receber, e ver comentários aparecendo e visitas se repetindo. Isso empolga, e faz deixar de lado qualquer preguiça.
Aos que tem blog, vai a pergunta: como começaram seus blogs?

Sunday, August 19, 2007

A Távola Redonda

Puxa... ninguém disse nada mesmo hein? Eu falando na semana passada que os artefatos míticos terminavam no último post, e ninguém para lembrar da távola redonda? Tudo bem, eu esqueci também, hehe...

A Mesa Está Servida...

A tal de távola redonda conhece duas definições. A mais comum e conhecida é a clássica de uma mesa redonda, de diâmetro considerável, onde todos os grandes cavaleiros de Camelot se reuniam ao chamado do Rei Arthur para debater as questões de importância. A mesa tinha este formato para que ninguém possa se considerar mais ou menos importante conforme sua distância da cabeceira da mesa. Mesmo assim, teve uma cadeira que ficou vaga, a famosa cadeira perigosa, que expliquei no post anterior.
A segunda definição, menos conhecida, diz que a Távola Redonda não era somente uma mesa, mas uma ordem da cavalaria, a mais elitista dentro das muitas em Camelot.

Eram os mandamentos dentro da Ordem:

  • Nunca saquear ou assassinar
  • Sempre rejeitar a traição
  • Não ser cruel, e ter piedade para quem pedir por ela
  • Socorrer mulheres, damas e viúvas
  • Nunca forçar mulheres, damas e viúvas
  • Não se envolver em brigas tolas de amor ou por bens
Temos que admitir que a metade delas são plausíveis de interpretação maliciosa, mas na época em que foram escritos estes mandamentos, as pessoas não tinham segundas intenções, ou não sabiam disfarçar direito. Ah, saudade da idade média...

Históricamente falando...

A távola redonda teve sua origem lá pelos idos 1155, o "Roman de Brut" de Wace foi um texto, basicamente uma releitura do clássico primeiríssimo texto arturiano, de Geoffrey de Monmouth. Neste livro, Wace escreveu que a mesa tinha esse formato para manter a posição de todos os cavaleiros como iguais, sem distinção entre eles. Neste texto foi também contada a história da origem da mesa.

Estava Merlin sem fazer nada, sem aprontar, e de puro tédio foi bater papo com Uther-Pendragon, futuro pai do Arthur. Contou para ele a historia da Ultima Ceia, e ao descrever a mesa.. falou da mesa redonda, deixando os discípulos como iguais. O Rei mandou construir esta mesa, e a entregou como presente para o Rei Leodegrance de Cameliard, futuro pai da Gueinevere. Uns bons anos depois, a mesa foi o presente de casamento entre Arthur e Gueinevere, que trouxe a mesa novamente para Camelot. Foi Merlin também que criou a cadeira perigosa, que poderia ser ocupada somente pelo mais puro dos cavaleiros (that means Galahad, pra que não leu o post anterior).

A Dança Das Cadeiras

A criatividade dos diferentes autores sobre a távola redonda é tal, que a variação na quantidade de lugares é digna de inquérito. Vejam só:

  • 13, no Didot-Perceval (1225)
  • 50, no "Merlin" de Robert de Boron (1195)
  • 60, no "Ly Myreur des Histors (1350)
  • 130, no "A Lenda do Rei Arthur", balada Inglesa de séc. 16
  • 140, em "Erec" e "Iwein" do Hartmann von Aue (séc. 12)
  • 150, no "Lancelot" do período Vulgato (1220)
  • 250, no "Merlin" do período Vulgato (1225)
  • 1600, no "Brut" de Layamon (séc. 12)
  • 12, segundo a Marion de Marion e Sua Vida
Sim, perguntei para a Marion, afinal todo mundo tem direito de opinião. A questão é que uma mesa circular com capacidade para umas 30 pessoas já tem 6 metros de diâmetro, o que torna inviável pensar em qualquer conversa civilizada. É, sem Messenger, ICQ ou GTalk fica difícil...
Mesmo assim, existiu uma távola redonda, uma obra de arte da marcenaria.

A Verdadeira Távola Redonda

Castelo de Winchester. Um grande salão, admirável na sua arquitetura, tem na parede central uma grandiosa mesa redonda, pendurada na parede. Esta mesa possui inscritos os nomes dos cavaleiros nos seus respectivos lugares. Diz a lenda que os nomes, escritos em ouro, são obra de um feitiço de Merlin, e estes nomes mudavam conforme os ocupantes da mesa.
Eis os nomes:

  1. S(ir) galahallt Sir Galahad
  2. S(ir) launcelot deulake Sir Lancelot
  3. S(ir) gauen Sir Gawaine
  4. S(ir) p(er)cyvale Sir Percival
  5. S(ir) Iyonell Sir Lionel
  6. S(ir) trystram delyens Sir Tristan
  7. S(ir) garethe Sir Gareth
  8. S(ir) bedwere Sir Bedivere
  9. S(ir) blubrys Sir Blioberis
  10. S(ir) lacotemale tayle Sir La cotemal tail
  11. S(ir) lucane Sir Lucan
  12. S(ir) plomyd Sir Palamedes
  13. S(ir) lamorak Sir Lamorak
  14. S(ir) born de ganys Sir Bors
  15. S(ir) safer Sir Saphar
  16. S(ir) pelleus Sir Pellinore
  17. S(ir) kay Sir Kay
  18. S(ir) Ectorde marys Sir Ector
  19. S(ir) dagonet Sir Dagonet
  20. S(ir) degore Sir Degore
  21. S(ir) brumear Sir Brunar
  22. S(ir) lybyus dyscovy(us) Sir Guinglain
  23. S(ir) Alynore Sir Alymore
  24. S(ir) mordrede Sir Modred
Foi em 1976 que um estudo sério sobre a idade desta mesa teve inicio, usando técnicas como idade do carbono en raio-x. A descoberta deste estudo questionou até o que ja era sabido ou escrito sobre a mesa como tal. Originalmente, acreditava-se que esta mesa foi construida em 1463, e pintada em 1522 para o Rei Henrique VIII. Mas os estudos em carbono e sobre carpintaria da epoca revelaram que na verdade esta mesa foi feita por volta de 1270, no começo do reinado do Rei Eduardo I. Coincidentemente, o rei passava nessa epoca por um interesse enorme nas lendas arturianas, ao ponto que foi uma das pessoas presentes durante a abertura do túmulo encontrado em Glastonbury, que "seria" do Rei Arthur. Esta mesa foi provavelmente usada muitas vezes durante os torneios promovidos pelo rei, chamados na época de távolas redondas.

Agora sim, sem pegadinhas, terminam os posts sobre os objetos míticos; agradeço a todos pela leitura e a quantidade de curiosas visitas durante o fim de semana à espera do post.
Mmm... sobre o que escrevo na semana que vem??


Saturday, August 11, 2007

O (Santo?) Graal

Muito bem, muito bem. Fim de semana, todo mundo expectante para ver o que vou falar do Graal, embora a Pedrita tenha roubado parte do meu post, hehe..

Era una vez, hace mucho, mucho tiempo...

Como todos os contos antigos que vale a pena lembrar, vou contar primeiro a versão arturiana da lenda do graal, segundo Chretien de Troyes:

O Santo Graal foi a taça onde Jesus Cristo bebeu durante a última ceia, momento sacro e decisivo como poucos nos Santos Evangelhos. Esta taça foi entregue ao seu sobrinho-neto, Jose de Arimateia, que a usou para recolher o sangue e o suor de Jesus durante a Crucifixão. Aparentemente, Jose de Arimateia foi preso logo depois da Crucifixão, e deixado para morrer em um túmulo semelhante ao usado para os restos mortais de Jesus (basicamente, uma caverna com uma rocha na entrada). Ele foi deixado para morrer, mas o poder do Santo Graal deu sustento para ele durante anos.
Em algum momento, Jose de Arimateia viajou para a Bretanha com sua familia e alguns seguidores, para se assentar em Ynis Witrin (hoje Glastonbury). Mas o Graal não ficou com ele, foi levado para Cobernic, onde ficou sob resguardo dos Reis do Graal em um castelo bem protegido. Os Reis do Graal não seriam outros mais do que os descendentes na linhagem de Jose de Arimateia, filhos da sua filha Anna e o marido dela, Brons.
Siglos depois, a localização do grandioso castelo de Cobernic perdeu-se no tempo.
Na coorte do rei Artur, foi profetizado que o cavaleiro de coração mais puro seria um descendente da linhagem de Jose de Arimateia, acharia o Graal, e este cavaleiro seria o único digno de sentar na Cadeira Perigosa. Piadas à parte, a tal da Cadeira Perigosa era uma cadeira da Távola Redonda que abria um buraco onde sumiam em chamas os indignos que ousassem sentar nela.
Com a aparição de Galahad filho de Lancelot no trono e uma curta porém marcante visão do Graal, começa o que seria a maior empreitada dos cavaleiros da Távola Redonda. Após anos de busca, que teve finalmente o primeiro encontro com o Graal foi Parsifal, (aka Perceval, aka Peredyr), nas terras do Rei Pescador. A história de Parsifal é um livro por si só, mas o que interessa é que ele falhou em perguntar pelo Graal para o Rei. Sua falta de iniciativa fez dele indigno de encontrar o Graal.
Outro cavaleiro que chegou muito perto de encontrar o Graal foi (quem mais) o Lancelot, mas ele foi proibido de entrar no castelo, pois tinha cometido o pecado do adultério (crianças, eis a lição de hoje: todo mundo fica sabendo MESMO, até os que moram num castelo perdido há siglos).
Finalmente, Galahad teve seu encontro com o Graal. Ele era o cavaleiro perfeito, da linhagem de Jose de Arimateia. Este posto era para ser do Lancelot, mas ele pecou... enquanto o filho se manteve puro, e olha que tentação não faltou.
Finalmente, Galahad ficou frente a frente do Graal, e teve a visão do rosto de Deus, visão que nem Moisés teve quando escreveu os Dez Mandamentos, que viu apenas uma rocha ardendo.
Galahad foi recebido diretamente nos Céus, passando para a Vida Eterna do lado do Salvador sem passar pela morte.

In nomine Patris, et fillii, et Spiritus Sancti...

Mais uma vez, essa maravilhosa historia passada de povo para povo pelos bardos, tem o dedo religioso até a médula, fazendo de uma historia pagã uma historia ainda maior do que a Bíblia. Afinal, quem não sabia ler ia criticar de que forma? Quem tinha a coragem de ser chamado de herege por seguir as tradições druidas?
Vou contar outra historinha, e vejam as semelhanças na busca de uma relíquia sagrada com formato de vaso, que possuía poderes mágicos. Essa menção já aparece no conto do Mabinogion sobre Culhwch e Olwen, mas a história provavelmente melhor conhecida seja a de Preiddeu Annwfn, chamada de Espólios do Outro Mundo, e recontada por Taliesin.
Arthur e seus guerreiros navegaram ao Outro Mundo Céltico para capturar o Caldeirão de Annwfn. Como o graal, o caldeirão era capaz nutrir os necessitados, mas também era profético. Foi encontrado em Caer-Siddi (Wydyr), uma ilha onde ficava um castelo de vidro, guardado por nove ninfas sagradas. Mas os perigos da busca foram demais para os homens de Arthur. A missão foi abandonada, e somente sete dos nove que partiram voltaram para casa.

A Era do Bronze

Camelot não se alimenta apenas de lendas medievais, embora a visão que temos dela seja exatamente essa. A lenda do graal, as espadas, os eventos mágicos, praticamente todos eles são releituras de antigas lendas celtas. As historias celtas sempre estiveram acompanhadas de recipientes mágicos. Os caldeirões celtas eram usados em festividades desde a Era do Bronze. Muitas pesquisas arqueológicas encontraram estes tipos de caldeirões, como o encontrado em Jutland, na Dinamarca, chamado de caldeirão de Gundestrup. Este caldeirão estava ricamente decorado com deidades celtas, e tinha uma capacidade aproximada de uns 120 litros. Isto revelou a importancia dos caldeirões nos cultos religiosos, e seus reflexos nas lendas celtas e posteriormente na mitologia arturiana.
Outro elemento citado com freqüência é a Cornucópia, o Chifre da Abundancia. Um elemento mítico, do qual surgiam iguarias sem fim. Mais uma vez, trata-se de um recipiente do qual surgem alimentos, como nas histórias anteriores. A Cornucópia é figura comum na mitologia greco-romana, normalmente carregada nas mãos de ninfas ou semi-deusas.

No fim, já vimos visões do Graal como uma taça, um caldeirão, em linhas gerais um recipiente sagrado sempre envolvido em buscas.

Tem outras visões ainda mais imaginativas, como a proposta no livro "O código Da Vinci", onde o cálice sagrado seria Maria Madalena . O filme baseado no livro mostra uma cena muito interessante de superposição de imagens na pintura da última ceia do Da Vinci. Gostei muito do Sir Ian McKellen (sim, ele foi nomeado cavaleiro pela rainha da Inglaterra) no papel de historiador. Um dos grandes atores pelos que sinto admiração em praticamente todos seus trabalhos.

A Busca Moderna

Vários lugares são cogitados como o descanso do Santo Graal, cada um com seus méritos. Embora a Igreja Católica não aceite a imagem do Graal como relíquia sagrada, existe uma igreja em Valencia, na Espanha, chamada Capilla del Santo Cálice. Esta capela guarda em seu interior uma taça românica dourada, que afirmam ser a taça onde Jesus bebeu durante a última ceia. Esta peça passou muito perto de ser extraviada nas mãos dos nazistas durante a segunda guerra, na procura de itens de arte e antigüidades.
O contraste de uma peça de ouro ricamente decorada com a prática de humildade e desapego aos bens materiais praticada por Jesus torna simplesmente inacreditável a lenda, mas que a taça é linda, ah, isso é mesmo. Gostaria de visitar para ver de perto.


No cinema, tem algumas referências também; uma das mais divertidas ou entretidas de assistir é a do Indiana Jones. O encontro do caçador de tesouros com o Graal é bem marcante, e muito acertado com o tom do filme, e mais uma vez aparece como doador de dádivas. No filme, Indy tem que reconhecer o verdadeiro cálice entre outras cópias dele, cada taça com suas características bem diferentes uma da outra. Somente os dignos (como Galahad) reconheceriam o verdadeiro cálice.

Chega assim ao fim este post sobre o Cálice Sagrado, encerrando também a seqüência de posts sobre os artefatos mágicos na lenda arturiana. Tenho alguns assuntos em mente para a semana que vem, tenho que decidir ainda sobre qual deles vou falar. Minha única certeza para a semana que vem é que estarei bem ocupado pelo lado profissional, portanto acredito que a escolha estará mais condicionada ao tempo disponível do que à preferência por um assunto em particular.
Por outro lado, estou pensando em um post monstruoso, que pretendo escrever em partes e publicar como um só; esse vai precisar de uma pesquisa mais estruturada, e provavelmente leve alguns meses para concluí-lo.

No meio da semana divulgo o assunto para o finde. Obrigado pela leitura, e ótima semana para vocês!