Saturday, February 9, 2008

Cultura Inglesa

Quem tem TV a cabo pode curtir geralmente um leque enorme de canais, dos quais acaba assistindo no máximo quatro. Já pensamos no trabalho várias vezes sobre como seria se eu pudesse pagar apenas para uma emissora (como se fosse um contrato de conteúdo para esse canal), e assim reduzir os gastos. Mas uma coisa que com certeza ficaria muito chato é o zapping... já pensaram fazer zapping apenas com os canais de ar? Seria a mesma coisa. No fim, defendo o modelo de um contrato com zilhões de canais, é dificil não encontrar alguma coisa para assistir.

Ainda assim, tem coisas que não chegam até nós, como canais da America Latina, por dar um exemplo. Em situações como essa, acho válido buscar "outros meios" para assistirmos o conteúdo que queremos ver, afinal, quem produz um programa é para ser visto. Caçando coisas na rede encontrei uma minissérie muito legal, pelo menos no quesito histórico:

A History of Britain

Logicamente, esperava alguma menção mesmo que mínima da lenda arturiana, mas como o documentário é sério não pode se dar o luxo de incluir qualquer menção religiosa, épica ou lendária no contexto. Não tem problema, o seriado é ótimo mesmo assim, e com isso ganhou o direito de entrar como post desta semana.

Eis um documentário produzido entre 2000 e 2001, escrito e estrelado por um professor da universidade de Columbia, Simon Schama (que já ensinou em Oxford, Cambridge e Harvard). Com patrocínio da BBC e o History Channel, o Simon passeia durante cada episódio por lugares históricos, que conforme ele explica em cada parada tiveram influência drástica na formação histórica da Britânia, e posteriormente da Inglaterra.

Possui um formato de 15 episódios de 55 minutos cada, e assisti os dois primeiros por enquanto, "Origins" e "Conquest!". O primeiro vai desde os primeiros povos na ilha na idade da Pedra, passando por vilarejos, túmulos e construções monumentais como Stonehenge; pega carona no período romano, e conta o começo e auge da Bretanha Anglo-Saxã. O segundo episódio mostra o confronto dos reis medievais com invasores vikings, as intrigas e traições no período anglo-saxão e a passagem para a Bretanha Normanda.

No segundo episódio é exibido um tapete bordado de 70 metros, contando boa parte da história entre as disputas pelo reino de Britânia, a ameaça viking, e as intrigas que levaram a vitória normanda em terras estrangeiras, virando o mapa da Inglaterra para o lado continental, e esquecendo de vez suas origens e lealdade para com os povos nórdicos. Resumindo, conta os detalhes da invasão normanda de 1066. A imagem abaixo é apenas uma amostra do desenho, que se estende de ponta a ponta no "Bayeux Tapestry".


O que mais gostei do seriado é a capacidade do Simon Schama de ser didático; é muito conteúdo, muito bem apresentado, rico em detalhes, e sem exaltação. A proposta não é falar da imponência da Bretanha, pelo contrario, se apega ao pano de fundo que fez da Bretanha o que ela é. Cada momento histórico, cada batalha decisiva é comentada como ponto de pivô para os eventos vindouros, e justifica históricamente os conflitos entre diferentes povos e seus resultados.

Gimme More!!!

Como mais apoio histórico ao blog, ainda achei um livro da editora Longman, "An Illustrated History of Britain", de David McDowall. Por enquanto somente virei as primeiras páginas, e posso dizer apenas uma coisa: promete.

Pelo que folheei, abrange mais ou menos o mesmo período do seriado, desde Stonehenge até Winston Churchill. Belas imagens, muitas referências geográficas, e a necessidade imperiosa de um bom dicionário do lado quando a coisa aperta. Até agora sem problemas, mas o inglês britânico não é meu forte. Ainda bem que não é australiano...

Até a semana que vem!


Monday, February 4, 2008

É Campeão!!! É Campeão!!! A Lenda Arturiana Cai na Folia, A Justiça Da Lenda Medieval Nos Ensina A Viver Em Harmonia

Poxa... já pensaram se uma escola de samba decide usar a lenda arturiana como assunto do desfile? Eu já pensei. Na verdade, a idéia veio nesse fim de semana, porque em todos os carnavais meu senso crítico acorda para certas coisas dos desfiles. Eu sempre procuro o ponto de pivô em comum entre todas as escolas; geralmente é algum meio de transporte. Um par de anos atrás, todas as escolas falaram que "navegaram com os fenícios". Coincidência?

Enfim, a lenda arturiana é colorida o bastante como para render um ótimo desfile, porém não posso confiar nos carnavalescos no quesito exatidão histórica. Portanto, como já me disseram que eu daria um ótimo carnavalesco, abracei a causa e vou montar aqui, no blog, o desfile sobre o Rei Artur.

Comissão De Frente

Não podia ser mais óbvio... aldeões, olhando para distintos cavaleiros tentanto puxar a espada da pedra, sem conseguir. Do meio da turma de aldeões, surge uma criança, que consegue puxar a espada. Coloca a espada novamente na pedra, mais um cavaleiro tenta puxar, e novamente a criança mostra que é a escolhida. Todos reverenciam a criança, ela ergue a espada, todos se juntam, a espada volta para a pedra, e com passos coreográficos empurram a pedra para a frente, para repetir a seqüencia.

Porta-Bandeira e Mestre-Sala

Roupas medievais de gala, tecidos com desenhos de losangos em ouro e vermelho, e claro, um dragão se destacando no peitoral. Afinal, tenho que homenagear Uther Pendragon, pai do Arthur...

Alegorias

O mais apropriado para um assunto destes é desenvolver a história principal, pegar os acontecimentos mais marcantes da lenda e explorá-los em cada carro alegórico.
Em média, os desfiles de São Paulo tem 5 carros, enquanto os do Rio de Janeiro chegam até 8 carros. Minha escola não pode começar com a pretensão de desfilar no Rio logo de cara, portanto vamos assumir um desfile de São Paulo, com menos orçamento e menos tempo.

Limitado então a cinco carros, o que não posso deixar de mencionar?

A Dama do Lago, entregando Excalibur para Merlin
Arthur Rei, casamento com Guinevere (Castelo de Camelot)
A pulada de cerca de Guinevere com Lancelot
A Távola Redonda e a Visão do Graal
A Busca do Graal, e o sucesso de Galahad (Percival dependendo a versão)

Alegoria Bônus: O Desenlace da Luta entre Arthur e Mordred, com Arthur partindo para Avalon (spoiler!!) - Esta alegoria é bem discreta, como encerramento.

Samba-Enredo

Este ponto é difícil, mas como o improviso conta, posso simplesmente lançar algumas frases soltas para passar a idéia. O resto posso fazer até o carnaval do ano que vem.

Grande exemplo governava na Britania,
terra de nobres e encantos mil
esse homem inspirava as façanhas
que até hoje podemos ouvir (Ah! Meu Deus!)

A nobreza celebrou a descoberta
do jovem que filho de rei se revelou
A espada ele libertou da rocha
feitiço, obra do Merlim recebeu (ô ô ôooo...)

A magia pede passagem na avenida
A Lenda do Rei Arthur vou contar
O Rei da Britania em Camelote (detalhe para o "e" de Camelote!)
De Cavaleiros e Espadas vou falar

Enfim, acho que deu para pegar a idéia.

Fantasias

Nada mais lógico que ter alas com cavaleiros, donzelas, as justas, e pegar carona em tudo o que se diz medieval, como bardos cantores para a bateria. Nomes como Bors, Morgana, e outros não podem ser esquecidos, e podem se encaixar nos destaques da escola, entre uma ala e outra.

Promete, não é? Bom carnaval para todos!!

Sunday, January 27, 2008

Cadê o Post deste Fim de Semana?

Saberão após clicar no link. A bom entendedor, um post só basta.

Saturday, January 19, 2008

Todos os caminhos levam a Roma?

Estradas Romanas

Os romanos serão lembrados por sempre pelas suas façanhas, pela sua expansão como império, e sua influência no mundo de hoje. Uma das suas realizações que perdura até hoje são suas estradas, e é delas que vou falar hoje.

Pedra sobre Pedra

É muito difícil hoje imaginarmos cidades sem estradas, sem ruas. Viajar por estradas de terra, ou mesmo pelo ermo apenas seguindo as estrelas. O que possibilitou aos romanos chegar tão longe foram suas estradas, que são apenas uma amostra da sua capacidade para estratégia.
As estradas foram desenvolvidas inicialmente para movimentar tropas rapidamente; cada vez que surgia uma ameaça externa em alguma cidade, era muito simples para os romanos se deslocarem para rodear o inimigo, que não conhecia o desenho das estradas. Dessa forma, não era necessário manter grandes contingentes armados em lugares fixos, com todos os gastos que estes ocasionavam (imaginem o que é arranjar espaço, comida e agua para dez mil, vinte mil soldados). Por outro lado, o exército inimigo precisava sempre contar com a sorte de ter espólios, de entrar em uma cidade abastecida para cuidar dos seus e continuar avançando.

Com a vantagem do conhecimento dos caminhos e a mobilidade facilitada pelas estradas, as notícias viajavam muito rápido, e era fácil fechar o cerco contra qualquer ameaça externa.
Logicamente, as estradas passaram a ser a melhor opção (muitas vezes a única) para se locomover de uma cidade para outra, com o que viraram rotas de transporte de mercadorias. As estradas permitiam o trânsito de carroças carregadas sem receio das inclemências do clima; a chuva e a lama não mais detinham o comércio.

Engenheiros do Futuro

A pergunta de sempre: o que isso tem a ver com o Rei Arthur?


Fácil: Quando os romanos chegaram na Bretanha, eles encontraram os bretões (obvio), e as estradas deles. Toscas, em péssimas condições, em terreno alto (o que prejudica pelo clima) mas que serviram de traçado inicial para as estradas romanas na Bretanha e permitiram o avanço para o norte. As estradas romanas construídas na Inglaterra são as que se encontram em melhor estado de preservação; isso se deve em boa parte à qualidade do trabalho ao construir as estradas.

A técnica envolvia a colocação de grandes rochas como base, seguidas de rochas menores, argila e finalmente areia; as estradas eram mais altas no meio, para escoar água para fora dela, e em praticamente todos os casos tinham calhas para a chuva. As maiores estradas tinham até 10 metros de largura, o que permitia a passagem de carroças nos dois sentidos sem nenhuma delas ter que sair da estrada; estas estradas tinham também calhas centrais que escoavam por baixo da estrada.

Olhando os mapas que publiquei hoje, podemos ver como as estradas eram retas. Isto não é suposição: elas eram e são surpreendentemente retas. Como eles conseguiam?

O motivo: Como conquistadores, podiam fazer o que quisessem com as terras, portanto pouco importa se tinham que passar pelo meio de uma plantação, ou da terra de quem for; a estrada seria sempre o caminho mais curto, que é em linha reta.
A solução: eles usavam um aparelinho simples, chamado groma. Duas peças de madeira presas em cruz, com contrapeso nas pontas da mesma tábua com o mesmo peso. O engenheiro de estrada segurava o groma pela tábua sem pesos, e os pesos se equilibravam. Olhando a posição dos pesos alinhados, podia traçar uma linha reta, e indicar aos soldados onde plantar uma vara na terra, indicando a posição. Este processo se repete alinhando todas as varas, fazendo uma linha. A estrada era construida em base à posição das varetas.

Simples! Tão simples que é usando até hoje pela engenharia civil, só que hoje com medidores de distância que funcionam a laser. Mudou a tecnologia, mas o método é exatamente o mesmo; ainda hoje tem um peão segurando a bandeirinha :-)

Bis nexte woche!


Saturday, January 12, 2008

Material de Estudo


É bom escrever de novo. Tenho vários assuntos em mente para os próximos posts, algumas coisas que quero compartilhar, e outras sobre o rumo do blog em si, como colocar mais participação dos leitores, por citar uma das idéias. Esperemos que a RL (Real Life, como chamam meus amigos do Dark Age of Camelot) me deixe tempo para isto.

Este post surgiu como idéia no Natal, ao abrir um presente: Era um livro que já fazia parte da minha coleção, e que consegui trocar na loja por outros. Sim, outros, porque não me aguentei e comprei mais alguns, pagando a diferença.

Este post é um revival de um post anterior, só que um pouquinho mais detalhado; ele fará parte de um link permanente no menu do blog, para quem quiser consultar a qualquer momento. Este post fala sobre meu material de estudo, os livros que descansam na prateleira enquanto não estão nas minhas mãos.

Bernard Cornwell


Autor pelo qual criei uma relação de fã, pela qualidade da sua escrita, pela riqueza dos seus textos. Comecei a ler seus livros durante a busca de material arturiano, e acabei me encantando com suas histórias. Professor de faculdade, sua especialidade é historia militar. Ele coleciona mapas antigos, e muitas vezes estes mapas inspiraram textos. Ele leva muito a serio suas pesquisas; já viajou pelo mundo, participando de buscas arqueologicas para enriquecer ainda mais os capítulos dos seus livros, para vivenciar o calor, o desconforto, a canseira das viagens e tantas outras coisas que seus personagens vivem durante cada página. Eis os livros que tenho dele:

Arturiano - Século V
As Crônicas de Artur: Volume I - O Rei do Inverno
As Crônicas de Artur: Volume II - O Inimigo de Deus
As Crônicas de Artur: Volume III - Excalibur

Arturiano / Histórico (Inglaterra/França) - Século XV
A Busca do Graal: Livro I - O Arqueiro
A Busca do Graal: Livro II - O Andarilho
A Busca do Graal: Livro III - O Herege

Histórico (Inglaterra/França) - Século XVIII
As Aventuras de Sharpe: O Tigre de Sharpe
As Aventuras de Sharpe: O Triunfo de Sharpe
As Aventuras de Sharpe: A Fortaleza de Sharpe
As Aventuras de Sharpe: Sharpe em Trafalgar
As Aventuras de Sharpe: A Presa de Sharpe
As Aventuras de Sharpe: Os Fuzileiros de Sharpe

Histórico (Guerras Saxônicas) - Século IX
Crônicas Saxônicas: Livro I - O Último Reino
Crônicas Saxônicas: Livro II - O Cavaleiro da Morte

Conn Iguldenn

Aluno do Cornwell, aprendeu direitinho a arte da escrita, até conquistando a admiração do seu professor de faculdade. Ele mesmo comentou ao New York Times, falando que "trata-se de um texto fantástico. Eu adoraria tê-lo escrito". Que elogio!

Histórico - Período Romano
O Imperador: Volume 1: Os Portões de Roma
O Imperador: Volume 2: A Morte do Rei
O Imperador: Volume 3: Campo de Espadas
O Imperador: Volume 4: Os Deuses da Guerra

Christian de Montella

Homem que fez de tudo na vida, acabou vingando como escritor arturiano. Os textos dele estão totalmente baseados no material mais antigo (Chrétien / Malory), mas nem por isso vou tirar o mérito do seu esforço em divulgar e recontar as velhas lendas. Quem sabe, daqui a uns 10 anos, eu não faça a mesma coisa no papel; hoje faço por aqui.

Graal Volume 1: O Cavaleiro sem Nome Graal
Volume 2: A Neve e o Sangue
Graal
Volume 3: A Nau do Leão
Graal
Volume 4: A Revanche das Sombras


Falecidos

Logicamente, a lenda surgiu faz muitos séculos, portanto o texto mais rico ou por falar assim, "mais cru" é o original, e suas traduções às línguas modernas. Neles se encaixam estes textos:

Anônimo - A Morte do Rei Artur (Séc. XIII)
Dorothea e Friederich Schlegel - A História do Mago Merlin
Chrétien de Troyes - Perceval
Chrétien de Troyes - Romances da Távola Redonda*
Thomas Malory - Os Cavaleiros da Távola Redonda
T. H. White - O Único e Eterno Rei: Volume I - A espada na pedra

*livro que resume os contos:
- Eric e Enide
- Cliges, ou a que se fingiu de morta
- Lancelot, o cavaleiro da charrete
- Ivain, o cavaleiro do Leão

Outros Anônimos Famosos


Sim, eu compro livros arturianos não só como material de estudo, mas também por impulso. Acontece.

Albert Béguin e Yves Bonnefoy - A Busca do Graal (mediano)
Maria Nazareth Alvim de Barros - Merlin: o filho do Diabo (plágio/tradução do Merlin acima)
Allan Massie - Rei Artur (já comentei no blog - fontes duvidosas de pesquisa)
Emma Jung - A Lenda do Graal (analise Jungiana da lenda arturiana. Chato pacas)

No original


Este vai dar trabalho, mas ao mesmo tempo é provavelmente o livro mais precioso da minha coleção.

Sir Thomas Malory - Le Morte D'Arthur

Este livro foi escrito no século XVIII, é uma edição definitiva, com todos os textos de Malory no original, no inglês do jeito que era nesses tempos. Os contos não estão vinculados, estão separados do jeito que foram escritos. A ilustração que abre este post é uma das pinturas feitas por Anna-Marie Ferguson com o único fim de ilustrar o livro. Ainda junto coragem para mergulhar nele de vez.

Quem sabe o que irei comprar ou ganhar neste ano... mas sem dúvida, material é que não falta. Isso sim falar da videoteca...

Até a semana que vem!!

Sunday, January 6, 2008

Novo Ano, Novo Quick Post

Este novo ano continua com o agito do ano anterior; correria na vida pessoal, mas uma correria ótima. Tenho saído muito, e o tempo que passo na frente do computador foi para me dedicar a outros hobbies, além do blog. Mensagen aos blogueiros: tem vida fora a internet, tá? Não precisam ficar horas clicando em perfis e fotos de alheios, tem tanta coisa legal para fazer! Em alguns minutos estarei na rua de novo. Parei apenas para dar sinais de vida, manter o blog vivo, e comentar que já estou com alguns assuntos em mente, mas que precisam de um pouco de estudo, ou pelo menos de base para escrever uma coisa que me satisfaça.
Respeito muito meu trabalho, e mais ainda meus leitores como para escrever qualquer coisa só por preencher texto; enquanto isso, vejo todo mundo online, offline e/ou vivo-line. Curtam seus hobbies!

Monday, December 24, 2007

Éric et Énide: Parte 3

Este post é continuação da parte um e parte dois; se não leu esses posts ainda, recomendo muito ler na ordem.

A tradução do Chrétien que tenho em mãos começa em este ponto em itálico, resumindo alguns acontecimentos como se fosse uma pausa entre dois atos de uma obra. Respeitando o texto, prossigo da mesma forma no ponto em que paramos na parte dois.

Acontecem então os preparativos de combate. Equipado com as armas pelas mãos da jovem, Eric a coloca imediatamente na garupa e dirige-se para a praça livre e ampla onde vê chegar o cavaleiro e a sua equipagem. Este convida a donzela a apoderar-se do pássaro que lá está sobre a percha. Voltando-se para sua amiga, Eric faz o mesmo. É o desafio, e em seguida acontece o primeiro grande combate singular dos romances da Távola Redonda. Seqüência de episódios selvagens. Vencido, o cavaleiro do anão corcunda implora graça. Recebe a imposição de ir ao castelo de Cardigan, colocar-se à mercê da rainha Guinevere e anunciar a próxima chegada do vencedor e sua companhia. Estes logo se põem a caminho.

Juntos, tanto cavalgam que ao meio-dia em ponto ante o castelo chegaram. Eram esperados em Cardigan. Para os ver de longe, os melhores barões tinham subido às janelas. Com a rainha Guinevere e o próprio rei estavam Kai e Parsifal, sire Gawain e Tor filho do rei Ares, Lucan o copeiro-mor e mais outros cavaleiros. Quando longe viram Eric, todos o reconheceram bem. Com a sua chegada a rainha e toda a corte sentem a mesma grande alegria, pois todos o amam igual.

Tão logo Eric chega diante do palácio, o rei desce a seu encontro e também a rainha. Todos lhe dizem "que Deus vos guarde!" e prezam e louvam a grande beleza de sua donzela. O próprio rei a segura para descer do palafrém. Faz-lhe a maior honra, levando-a pela mão até a grande sala de pedra do palácio. Atrás deles Eric e a rainha sobem da mesma forma, de mãos dadas. Diz ele:

- Senhora, trago-vos minha donzela e jovem amiga, de pobre vestimenta vestida. Assim ela me foi dada. Assim a trouxe até vós. É filha de um pobre vavassalo. Pobreza rebaixa muito homem bom. Seu pai é nobre e cortês, mas de bens quase nada tem. A mãe é senhora mui digna, pois possui como irmão um rico conde. Beleza e origem não serão motivos para que eu recuse esposar esta damizela. Pobreza tanto lhe puiu o camisão branco que nos cotovelos as duas mangas estão rotas. Contudo, se eu a quisesse fazer portar boas vestes, sua prima ofereceu-lhe roupa de arminho, seda, veiro ou petigris. Porém não consenti que outra ela vestisse enquanto assim não a vísseis. Minha gentil senhora, sabeis o que é preciso: suplico que penseis em vestir-lhe belas vestes.

Responde a rainha:

- Agistes bem. É justo que ela tenha das minhas roupas. Vou lhe dar uma das mais belas.

A rainha conduz a donzela ao seu quarto e ordena que lhe tragam uma túnica nova e o manto da outra roupa traspassada, feita na medida exata do seu corpo. A serva traz prontamente o manto e a túnica, que até nas mangas era forrada de branco arminho. No punho e no decote haviam utilizado (não é adivinhação) mais de meio marco de ouro batido e pedras de grande valor: azuis, verdes, violeta e sépia. A túnica era de grande riqueza. Não menos valia o manto de tecido fino, tendo ao pescoço duas zibelinas com presilhas que pesavam cada qual pelo menos uma onça. De um lado cintilava um jacinto e do outro um rubi mais luzente que uma candeia.

Em seguida, duas criadas levam a donzela a uma câmara privada. Desvestem-na do camisão. Ela coloca a túnica, envolve-se em sua vestimenta, cinge uma faixa com passamanes de ouro e recomenda que doem seu camisão, pelo amor de Deus. Depois veste o manto. A cor das peles parece ficar mais escura. A roupa assenta tão bem que a torna inda mais bela.

Com um fio de ouro, as duas aias ornam o cabelo louro; mas ele brilha mais do que o fio que o prende. Na cabeça colocam um aro de ouro lavrado de flores de diversas cores. Do melhor possível a adornam, com tanto cuidado que nada há para retocar. Ao pescoço passam-lhe duas fivelas de outro nigelado com engaste de topázio. Igual à bela e graciosa jovem creio que em terra nenhuma houvera, tanto a natureza bela obra fizera.

Ela saiu do aposento e veio ter com a rainha, que a elogia, pois ama a damizela e apraz-lhe que esteja bem ornada e bela. De mãos dadas vêm ambas diante do rei, que se ergue ao vê-las. Quando as duas entraram, tantos cavaleiros se puseram de pé no salão que eu não saberia nomear a décima parte, nem a vigésima, nem a trigésima. Mas vos poderei dizer os nomes dos melhores barões da corte, os da Távola Redonda, que são os mais valorosos do mundo.

(...) Quando a bela jovem forasteira vê todos esses cavaleiros que a olham com insistência, baixa a cabeça. Sente pejo (não é de estranhar), e sua face purpureja. Mas o pejo que a assalta inda mais bela a torna.

O rei a vê assim envergonhada e não quer se afastar. Toma-lhe suavemente a mão e a faz sentar à sua direita. À esquerda assenta a rainha, que diz ao rei:

- Sire, pelo que veio e creio, aquele que com as armas conquistou tão bela mulher em terra estranha deve ser bem-vindo à corte do rei. Agimos bem ao esperar por Eric. Agora podeis tomar o beijo à mais bela da corte. Creio que ninguém vos impedirá, pois ninguém ousará dizer: "Esta que aqui está não é a mais bonita das jovens, neste lugar e no mundo todo".

Responde o rei:

- Não é mentira. A esta jovem, se ninguém me contestar, darei as honras do Cervo Branco.

Depois, dirigindo-se aos cavaleiros:

- Senhores, que tendes a dizer? Afirmo que ela tem o direito às honras. Podeis dizer algo contra isso? Se alguém quiser opor resistência, fale agora o que pensa. Sou rei. Não devo mentir nem consentir em vilania, falsidade ou desmedida. (...). O costume de Pendragon meu pai, que era rei e imperador, devo guardar e manter, não importa o que me possa ocorrer. Ora, dizei-me de pronto e mui livremente todo o vosso pensar: esta jovem, embora não sendo da minha casa, não deve por bem e justiça receber o beijo do Cervo Branco?

Todos exclamam a uma só voz:

- Sire, por Deus e por sua cruz, podeis julgar com justeza que esta aqui é a mais bela; que possui mais beleza e brilho que o sol! Livremente podeis dar-lhe o beijo. Estamos todos acordes!

Então o rei volta-se para a jovem e a abraça, dizendo:

- Doce amiga, dou-vos minha amizade sem má intenção, vilania ou maldade. De todo coração vos amarei.

Assim, seguindo o costume, o rei Artur restaurou o privilégio que o Cervo Branco tinha em sua corte.

Chrétien passa então a relatar como Eric pede ao rei Artur o favor de ter suas núpcias celebradas na corte. Prontamente o rei chama os vassalos mais ilustres: Bilis, rei dos antípodas, senhor dos anões; Maheolas, senhor da ilha de Vidro; Guíngomar, senhor da ilha de Avalon e amigo de Morgana; Aguiflez, rei da Escócia; Garraz, rei de Cork, e David de Tintagel, e o senhor da ilha negra...

Ao receber sua mulher em casamento, Eric teve de a chamar pelo verdadeiro nome. (Nenhuma mulher será legitimamente esposada se não for chamada pelo nome certo.) Ninguém ainda o conhecia. Nesse momento, ficaram sabendo: Enide era seu nome de batismo. O arcebispo de Canterbury, que viera à corte, abençoa-a segundo o costume.
Quando toda a corte estava reunida, a ela vieram todos os menestréis da região hábeis em algum divertimento. Grande alegria reinava no salão. (...) Nada que possa rejubilar e alegrar é omitido nesse dia de núpcias. Soam tímbalos, tambores, cornamusas, pífaros, flautins e trompas e charamelas. Não há porta nem portinhola fechada.
O rei Artur não foi mesquinho: ordenou a seus padeiros, valetes e copeiros que dessem com grande plenitude, a cada qual segundo sua vontade, pão, vinho e carne de caça. Grande foi o regozijo no palácio; mas de muitos detalhes vos poupo, para narrar o júbilo e o prazer que houve no quarto e no leito. Para essa primeira noite juntos, Enide não foi raptada nem Brangiene posta no seu lugar. A rainha interpôs-se para a adornar e deitar, pois os esposos ardiam por estar juntos.

Cervo acossado que de sede ofega não deseja tanto a fonte, nem gavião faminto retorna ao reclamo de tão bom grado quanto os amantes desejam se conhecer nus. Naquela noite ambos resgataram o tempo de tão longa espera! Quando todos deixaram o quarto, eles concedem aos corpos seus direitos. Os olhos saciam-se de olhar, esses olhos que descortinam a via do amor, enviando ao coração a sua mensagem. E agrada-lhes tudo que contemplam. Após a mensagem dos olhos vêm a doçura - que vale bem mais - dos beijos que atraem o amor. Dessa doçura ambos experimentam e dessedentam os corações, tanto que com grande custo a interrrompem. O beijo é seu primeiro jogo; mas o amor que os prende torna a donzela mais ousada. Logo ela mais nada teme. Tudo sofreu, por mais que lhe custasse. E antes de levantar do leito perdeu o nome de donzela. De manhã, havia dama nova.

Que liiiiiiiiindooo!!!! Quero mais!!!!!

A história do Cervo Branco termina por aqui, mas Eric e Enide tem um longo caminho pela frente. Quem sabe, daqui a alguns posts não conte o resto da história deles?
Acho muito poética a última seqüência de parágrafos que copiei do livro. Nela podemos adivinhar, sentir o fundo do texto original do Chrétien de Troyes, que era em francês, e em formato de verso. Na tradução perdemos muito disso, mas o texto foi redigido com tanto talento que mesmo após tantas transformações consegue emocionar e transmitir a força da mensagem. O amor é um gesto universal e atemporal, que revigora sua mensagem cada vez que duas pessoas se dizem "te amo". O sentimento entre Eric e Enide era esse: um vínculo de amor, que explodia na paixão desenfreada que os versos contam.

Desejo a todos meus leitores um ótimo Natal, uma deliciosa véspera rodeado de amigos, família e por que não, muitos presentes!

Até a semana que vêm!