Sunday, August 10, 2008

Avalon e outras ilhas

Eu, na minha inocência e ignorância, achei que seria um assunto fácil, ou pelo menos tão trabalhoso como a média dos posts que requerem pesquisa; me enganei. Posso dizer que não encontrei praticamente nada do que queria, mas em compensação encontrei outras coisas interessantes para compartilhar.
Se fosse preguiçoso e cara de pau, podia pegar o que consta no wikipedia, copiar aqui e dizer pronto, o post está feito, mas aí qual seria a graça? O que aprendi no final? Vou levar cada um de vocês por uma pesquisa, e contar umas coisas das quais nunca tinha ouvido.

Passeando no tempo

Aos que acompanham meu blog e o da Marion, sabem que estou lendo o Brumas no momento, e foi este livro que me trouxe a curiosidade pelo assunto das ilhas. Vou colocar o trechinho que me chamou a atenção. Igraine, esposa de Gorlois, tem um sonho curioso, estranho e molhado com outro homem, o Uther. Todos sabemos que na lenda arturiana, Uther fica com Igraine, união da qual nasce Arthur. Mas vamos voltar ao sonho de Igraine. Ela sonha com uma terra distante, ela vestindo como sacerdotisa, e Uther no sonho do lado dela, como sacerdote. Eis um trecho do dialogo entre eles:

Por um momento, Igraine, esposa de Gorlois, perguntou-se por que esse homem a chamaria pelo nome da sua filha ("Morgana") mas no mesmo instante em que a pergunta se formou no seu pensamento, soube que Morgana não era um nome, mas o título de uma sacerdotisa, significando apenas "mulher vinda do mar", numa religião que até mesmo Merlim da Bretanha teria considerado lenda e a sombra de uma lenda. Ouviu-se dizer, sem vontade:
- Também eu julguei impossível que Lyonesse, Ahtarrah e Ruta caíssem e desaparecessem como se jamais tivessem existido. Acredita ser verdade que os Deuses estão castigando a terra da Atlântida pelos seus pecados?
- Não acredito ser assim que os Deuses agem - respondeu o homem ao seu lado. - A terra treme no grande oceano além do oceano que conhecemos, e embora o povo da Atlântida falasse de terras perdidas de Mu e Hy-Brasil, ainda assim sei que no oceano maior, além do sol poente, a terra treme, e ilhas aparecem e desaparecem(...).

Lyonesse? Mu? Hy-Brasil? Epa epa, tem muita coisa nova aqui... Nada que um google esperto não consiga achar. Mas me enganei, em parte. Um comentário um pouco fora do tom antes de continuar: o Dark Age of Camelot tem terras com estes nomes, onde já joguei várias vezes. Cada vez que descubro alguma coisa assim fico encantado com o cuidado dos editores do jogo em transpor com tanto cuidado detalhes tão obscuros. Realmente referenciam as lendas antigas no jogo...

Hy-Braaasiiiillll, lará lará lará laraaaaááá...

As antigas lendas celtas remetem a existência de uma ilha, chamada de Hy-Brasil, e que seria o correspondente ao paraíso. Esta ilha estaria oculta à vista dos homens, e apenas os escolhidos poderiam encontrá-la. Esta ilha foi reportada várias vezes em mapas reais, em lugares diferentes, até o século 18. A partir daí a cartografia evoluiu ao ponto de transformar a ilha em lenda de vez, e sumir literalmente do mapa.
Para minha surpresa, tanto se fala em ilhas que na verdade tudo acaba caindo na mesma visão, e somente muda a interpretação conforme quem conta a história; ao me remontar a textos mais antigos, encontrei que na verdade Avalon, a terra das fadas na lenda celta, virou a ilha das sacerdotisas e os druidas, mais em contato com a natureza (o que faz todo sentido, e deu o nome à fada Morgana).
Esta mesma Avalon, não seria outra ilha que a mencionada em culturas anteriores com outros nomes; afinal, parece que Avalon é na verdade Hy-Brasil, e antes disso a própria Atlântida.
A arte de buscar referências cruzadas via nomes me levou até dois livros praticamente opostos. O primeiro deles, com o singelo nome de "Atlantis, Alien Visitation, and Genetic Manipulation" (Michael Tsarion, 2002) é uma viagem ao começo dos tempos onde os alienígenas (pasmem) habitavam nosso planeta, que tinha outros continentes e depois de cataclismas e outras coisas afins e convenientes fizeram que a Atlântida sumisse e com ela o povo-serpente, o que fez os oceanos mudarem de lugar e encher a bacia do mediterrâneo (WHAT???). Bom, se menciono este "curioso" livro é apenas pelo fato de contar algumas referências nas lendas antigas sobre ilhas além do mar, que não existiriam mais. Ah, se tivesse tido internet na época, né?
O segundo livro é de respeito, e não consegui desgrudar dele, mesmo lendo em pdf. Este livro tem por nome "The Fairy-Faith in Celtic Countries" (W.Y.Evans Wentz, 1911) e pelo ano do livro este autor não tinha internet. Ele fez um trabalho excepcional de pesquisa, e fico até com vergonha de usar um trabalho tão minucioso como referência, sem poder trabalhar no mesmo nível. Todo o texto consta com as referências da origem das afirmações, e cada uma mais original do que a outra, como por exemplo "folio 15, manuscrito sem título sobre God Midir, biblioteca nacional da Irlanda". Não tem comparação, mas ao mesmo tempo agradeço viver nos dias de hoje onde é possível pesquisar em sites como o scribd.

O velho, velho, veeeelho Arthur

Isto caberia em outro post, é sério. A lenda celta é conhecida por ser a origem ou inspiração das lendas arturianas, onde muitas vezes o heróico Arthur se inspira nas memórias contadas de Cuchulainn, Deus celta encarnado.
Sim, sei que parece viagem, mas vou me esforçar por passar a idéia.
A lenda arturiana tem suas primeiras aparições em livros considerados a matéria da Bretanha, tais como o Historia Britonum de Nennius por volta do ano 800, ou posteriormente o Historia Regum Britanniae de Geoffrey de Monmouth de 1136. Mas, acontece que estas aparições não falam de um "outro" Arthur, ao menos não diretamente.
Existe uma analogia constante nas lendas arturianas e especialemente na figura mítica do Arthur, onde os Bretões enxergaram poderes praticamente divinos, tornando-o uma deidade. Posteriormente veio a visão do Arthur como um rei humano, ou talvez humanizado, como se fosse um semi-deus, que veio para instruir seus coterrâneos e liderá-los. Tanto é assim, que como em tantas outras culturas, os seguidores de Arthur não eram outros que os cavaleiros da Távola Redonda... Começa a fazer sentido? Continuo.
Os herois celtas não eram outra coisa que deuses encarnados, cujo objetivo era exatamente instruir e orientar os membros da sua raça no plano terreno; isto é válido também em outras culturas antigas. O Cuchulainn dos celtas não é diferente do Osiris dos egipcios, e até deste lado do oceano encontramos deuses feito homens para liderar o povo nas culturas azteca e peruana.
Querem mais comparações?

Ai meus deuses...

Arthur nasceu da intervenção "divina" de Merlim, para que Uther e Igraine se encontrarem. Foi um nascimento abençoado pelos deuses, até porque Igraine vinha de Avalon, o que vamos entender a partir de agora como a terra dos deuses, ou o Paraíso em uma cultura mais tradicional.
A própria Guinevere aparece na lenda com o nome original de Gwenhwyvar, que se formos decompor surgem duas palavras: Gwenn, a palavra bretã para "branco", e hwyvar, que embora não seja conhecida no dialeto bretão tem conexão direta com a palavra irlandesa "siabhradh", que quer dizer fada, ou fantasma, nas variantes siabhra, siabrae e siabur. Traduzindo, nossa conhecida Guinevere se revela a fada branca, o que fecha a conexão com o mundo dos deuses.
Quem lembra da história do cavaleiro da charrete? Então, mais uma conexão interessante. Guinevere foi sequestrada por Meleagant, e levada para uma terra distante, que como diz o texto "onde nenhum dos que entrava poderia sair". Curiosamente, a tradição irlandesa (celta) tem uma historia muuuuito parecida onde uma tal de fada branca é levada para o Hades (a terra dos mortos, o inferno, etc..), onde esta fada tinha o nome de Etain e seu esposo do outro mundo era Midir. Voltando às comparações, em ambas as histórias aparecem pontes para separar as terras. No romance de Chrétien, eram a ponte sob as águas (usada por Gawain) e a ponte da espada, usada por Lancelot. No Tylwyth Teg, as pontes separavam o mundo conhecido do desconhecido (neste caso o outro mundo), e surge assim nossa analogia. Uma nota curiosa nesse sentido é que muitas religiões acreditam na idéia de definir a passagem entre a vida e a morte como a passagem por uma ponte estreita, inclusive no Alcorão temos a menção de uma ponte fina como um fio de cabelo, e comparando mais uma vez é o equivalente à ponte da espada, uma ponte perigosa fina como o gume de uma espada e longa como duas lanças.
Como se isso não bastasse, quem resgata a rainha Guinevere é Lancelot, e convenhamos, quem seria mais idôneo do que ele? Essa idoneidade surge do fato que quando ainda era um bebê, Lancelot foi adotado por Vivian, e criado como filho próprio. Vivian, não é outra que a Senhora do Lago, o que fez dessa criança o Lancelot do Lago (Lancelot do Lac). Se lembramos agora que Avalon ficava oculta nas brumas, e o reino de Avalon era regido por Vivian, encontramos a conexão que faltava; Lancelot, criado em Avalon, rodeado das fadas da ilha, e com liberdade para entrar e sair de Avalon a qualquer momento, conhecendo o caminho que separa Avalon do mundo conhecido; era ele o único mortal capaz de entrar e sair do paraíso, e o único que poderia resgatar Guinevere do Hades, da terra que ninguém volta, e trazé-la de novo para a terra dos mortais.
A última comparação acontece no episódio final, na batalha de monte Baddon, onde Arthur é ferido mortalmente por Mordred. Arthur entrega sua espada, que é devolvida para a dama das águas, que não é outra que a dama do lago. Na cultura celta, as armas são devolvidas aos deuses em sinal de oferenda ao lançá-las na bacia dos lagos, para que os deuses possam recolhé-las no outro mundo. Feito isso, Arthur é levado para uma barca, onde navega para Avalon (o paraíso?) acompanhado da sua meia-irmã Morgana, a fada, encerrando o ciclo com seu reencontro com o mundo divino, que começou na sua concepção.

Heavy stuff...

Saturday, August 2, 2008

Um mês depois...


Muito bem, muito bem. Tive meu mês de férias do blog, que não coincidiu com as férias na vida real; o fato é que durante as férias reais tinha tempo de escrever, mas na volta delas realmente não tive como escrever. O blog é um hobby, e como tal tem que ser divertido, e tem que servir para distrair não somente quem escreve como também quem o lê. Tenho feito alguns posts bem engraçados na minha opinião, posts que hoje quando os leio provocam bem mais do que um sorriso. E fico feliz da sensação de missão cumprida, ao ver que consegui aproximar as pessoas às lendas arturianas com um texto leve, que ao mesmo tempo é rico em detalhes. Nem todo mundo vai compartilhar minha paixão pelo assunto, mas meus textos trouxeram o interese de muita gente, que hoje acompanha os livros que tanto gosto.

Não tenho assunto para hoje, a verdade é que além da ferrugem em escrever não li praticamente nada; estou brigando com o Brumas de Avalon, cuja leitura está mais do que devagar. O texto é bastante descritivo, no sentido feminino da coisa. Tudo roda em volta de sensações, de sentimentos, sonhos, ilusões. Tem um lado sentimental muito maior ao dos fatos que acontecem na história; vou relatar um pequeno exemplo.

Para quem conhece a base da lenda arturiana, no Arthur nasceu de Igraine, engendrado nela por Uther, que estava fantasiado do marido de Igraine (Gorlois) usando um feitiço do Merlin. Não cheguei ainda na parte do "rola", mas até agora o texto fala muuuuuito de tudo o que Igraine sente, o desgosto de saber que iria se juntar ao Uther porque o destino falava isso, e como com o tempo começou não só a aceitar a idéia de se encontrar com Uther como também aceitar isso como parte de um destino ainda maior; a Deusa das Ilhas (entre elas Avalon) precisava de um homem engendrado por ela para comandar a Britania. Ao mesmo tempo, Igraine percebe que nunca amou o seu marido Gorlois, e embora ele tenha sido atencioso com ela isso não vale mais nada, pelo menos para ela. Ela olha para Gorlois sabendo que ele vai morrer sem ter um herdeiro dela, e isso fez que ela tivesse pena do marido. Mas ao mesmo tempo existe um certo despreço na atitude de Igraine, ao ver que o Gorlois é insignificante no plano dos acontecimentos vindouros. Ele deve morrer para que Uther possa ter o filho que a Deusa precisa.

Minha opinião é que o conto está por enquanto muito no veremos, e pouco na ação; tem muito lado sentimental. Talvez tenha essa impressão porque a única morte que aconteceu até agora foi natural, a velhice do Ambrosius que deixa a Britania sem líder, e encontra em Uther um novo chefe que não agrada a todo mundo. É provável que o que estou sentindo é falta de umas boas batalhas, mesmo que seja cenográfica como as justas.

Sou ciente que a maioria do público que lê meu blog é feminino... a pergunta vai a minhas amigas de blog: o que vocês acham desse roteiro?

E para manter a tradição, vou me obrigar a pesquisar e estudar. O jeito de fazer isso: forçando assunto!

Semana que vem, Avalon e outras ilhas...

Saturday, July 5, 2008

Entre uma coisa e outra

Olá, leitores. Gostaram do "collage" da semana passada? Acho engraçado como os filmes, seriados e demais gastam uma grana impressionante para fazer efeitos, e muitas vezes ficam parecendo tão falsos quanto o que fiz em casa, na verdade ficam até piores. Mas minha fotinho do Godzilla tumultuando uma Tokyo moderna tem seus méritos, especialmente na iluminação e foco. A fotografia é boa, convenhamos, para a escasez de recursos. A câmera no tripê, apontando para o monitor do micro mostrando uma foto de Tokyo à noite, que encontrei googlando. Segurei o Godi em várias posições, tirei várias fotos (todas com timer, para a câmera não tremer por apertar o botão), usei minha lâmpada como spot para deixar a sombra do Godi condizente, e "taadaáá!", pronta a foto para o post. E sim, o Godi não tem nada a ver com lendas arturianas, porque afinal nem dragão ele é, era um sapo mutante.

Então, o que o Gojira (como é seu nome original) veio fazer no meu blog?

Ele trouxe uma pausa, mais do que necessária, imprescindível. Não abrí mão do blog, nem pretendo fechar ele, mas preciso de uma pausa para ler e escrever decentemente. Me nego a postar coisas que não chegam no patamar de qualidade que eu busco. Me esforcei muito durante este ano todo de blog para manter a continuidade e a qualidade, ganhando elogios desde o começo dele e indicações sérias como fruto desse esforço. Tenho um compromisso comigo mesmo que vem de antes de começar a blogar, um compromisso com a qualidade do conteúdo. Não é apenas para respeitar meus leitores, tenho a obrigação de respeitar minhas próprias idéias.

Enquanto isso, o que ando fazendo? Reformas menores em casa, volta ao trabalho depois das férias, e não muito mais. Alguma ou outra pesquisa sobre o eeePC, meu brinquedinho mais novo, não muito mais. Digamos que estou no meio de uma fase onde medito bastante sobre tudo, com ares de observador, de passageiro da vida que estou vivendo, sem deixar de viver nada. Faço, mas também penso.

Tenho muuuuuitas coisas que larguei no meio e quero retomar. Entre elas, o Dark Age of Camelot, que depois de uma aparição fantasma na semana passada reencontrei a turminha e foi como se nem tivesse estado fora. Descimos até os lugares mais escuros para ajudar um "guildie" nosso para finalizar uma busca épica em umas cavernas. Uma turma integrada, coesa, e onde uma das falas que mais li foi "Wally, is so good to have you here with us". Emocionei.

Tem outros jogos na fila, como o Episodio 2 do Halflife2, o Hellgate London e coisas muito mais velhas que ficaram no baú.

Quero retomar também minhas experiências com eletrônica. De vez em quando faço projetinhos bobos, como lâmpadas que piscam quando alguém bater palmas, só para não perder a prática e até porque é um tipo de trabalho manual desafiador e divertido. No fim do trabalho, sempre fico com alguma tranqueirinha para brincar.

Outra coisa que ficou largada é a pilha de livros e filmes e seriados para ver. Terminei o The Big Bang Theory, que achei ótimo (até por me reconhecer em algumas cenas, hehe), mas parou por aí. Até o livro de Brumas de Avalon me olha com saudades desde o criado-mudo, que larguei depois do primeiro capítulo, e não foi por não gostar. O livro promete, mas cabe mencionar que tem uma carga altamente feminista, talvez pela época. O texto revira repetidas vezes (e isso que só li o primeiro capítulo) com a importância das mulheres e sua influência. Tanto é assim que não aparece um homem só em todo o capítulo, com exceção do Merlin, já velho, caduco e sem valor. Tenho que ler o resto.

Que mais? Vi vários filmes no cinema, como a Marion já comentou, e assinei o seriado Battlefield, a venda somente em São Paulo e Rio de Janeiro. É uma coleção de 18 DVDs sobre a segunda guerra mundial, com imagens da época. Nada fancy, tudo em preto e branco, tosco, real. Até que demorou para chegar aqui, porque foi produzido pela Universal em 1994. Por que comprar se posso baixar? Simples, porque vou gravar em DVD, e o tempo em baixar não justifica. Fica mais barato comprar assim mesmo do que conseguir por aí.

Novidades no mundo arturiano? Vi na Livraria Cultura um novo livro sobre o Rei Arthur, deixo o link com a resenha. Interessante, como sempre. Veremos...

Outro cavaleiro que esta vindo este mês é o Cavaleiro Negro... tem um trailer novo, para quem tiver curiosidade.

Para terminar, com a volta ao trabalho, voltei a ler o Savage Chickens, que chega pontualmente todos os dias no meu e-mail. Parece que o Doug Savage também lembrou dos épicos, do seu jeito tão particular de ver as coisas.

Para não passar em branco, vou postar uma imagem das tantas que coletei por aí. Esta imagem representa Perceval na armadura dourada, a mesma armadura que tirou do "capanga" do Mordred no segundo livro do Christian de Montella após o confronto no qual venceu com um dardo que acertou no vão da viseira.


Concordo com a Marion, que viu a foto antes de terminar o post. A pose do Perceval ficou meio bichona, ou como ela disse, "tá se achando um gatinho"...

Devo, não nego. Posto quando puder. Até!

Saturday, June 21, 2008

Sobre blogs, buscas, passeios e mapas

Foi um dia Domingo, especificamente o 24 de Junho de 2007 que este blog começou a funcionar pra valer. Foram anos de leitura, pesquisas, estudo, e com a percepção cada vez mais nítida da falta de informações em português sobre as lendas arturianas. Foi assim que surgiu o Camelot or What, para calar o que enxerguei como uma necessidade e um bem que podia fazer ao transmitir aos outros meu conhecimento sobre o assunto. Não, não sou erudito, nem acadêmico respeitado no círculo de escritores, quanto menos um imortal da academia de letras. Sou apenas um curioso que decidiu fazer diferença e pelos resultados das buscas que vieram parar no blog, posso dizer que a missão foi cumprida com sucesso.

É verdade: já falei deste assunto, e de como virei um arturólogo. Aos poucos a quantidade de assuntos diminui, enquanto os acessos ao site e as buscas somente tem aumentado. Muita gente visita o blog, e muita gente encontra exatamente o que procura, salvo muitos cabeçudos que ainda entram no meu blog procurando por castelos da disney ou mesmo castelos infláveis. Pelo menos as buscas por sexo com anões pararam faz um tempo. Provavelmente encontraram o que buscavam em outro site...

Sim, estou em clima de férias, sem muito assunto. Falando em férias, vou encerrar mostrando uma preciosidade que descobrimos com Marion durante nossa passagem pela simpática cidade de Colonia, em Uruguai.

Esta cidade foi fundada por portugueses, e foi um dos tantos motivos de briga entre espanhóis e portugueses durante a colonização da América do Sul. Ambos colonizadores precisavam de portos para comércio, mas isto ficou bem complicado na indefinição das fronteiras. Cada um estudou alguma coisa (eu no meu país, vocês no de vocês) sobre os tratados que fizeram portugueses e espanhóis para divisão de terras, onde sobrou uma região meio que terra de ninguém, que após algumas lutas revolucionárias virou Uruguai. Então, Colonia del Sacramento não era outra coisa que um porto português, que descoberto pelos espanhóis como quebra de acordo, foi invadido e remodelado. É uma cidadezinha cheia de contrastes, com herança patrimonial tanto portuguesa quanto espanhola. Assim, os museus da cidade exibem peças raras de ambas colonias, e entre elas alguns mapas com os que delirei. Vou deixar que Marion conte as nossas aventuras em Colonia, e me manter apenas no lado histórico da coisa.

Somente vou mostrar uma foto do que provavelmente seja uma reprodução muito bem feita do original de um mapa de 1500, com uma precisão espantosa para a epoca sobre as costas européias. Cliquem na foto para ampliar, e observem quanto detalhe aparece na costa da Espanha, Itália, as ilhas inglesas e o norte do continente africano, evidenciando uma rota concorrida de comércio.



Encontramos no mesmo museu outros tantos mapas interessantíssimos, até pelos comentários escritos em português e espanhol antigo. Minha vantagem por conhecer espanhol digamos "de fábrica" ajudou muito na interpretação dos textos, especialmente pela mudança de uso de algumas palavras. Dica que posso dar para vocês: sempre prestem muita atenção aos mapas. Imaginem o esforço e o conhecimento que aparece nas siluetas, qual informação o cartógrafo quis passar. Os cartógrafos faziam trabalho de escritório, eles desenhavam conforme as cartas que os navegantes traziam para eles, o que dependia totalmente da percepção de cada navegante e da habilidade em passar seus conhecimentos. Lugares mais distantes são vagamente descritos, com erros bem engraçados. Nos mapas de 1600-1700 sobre a costa da América do Sul, aparecem todas as cidades que conhecemos do Nordeste de Brasil assim como também outros grandes portos, como o de Buenos Aires. Os erros aparecem na escala, como mostrar o delta do Rio de la Plata muito maior do que é. A precisão de rotas é bem curiosa, incluindo a Ilha dos Estados no fim da patagonia, e Fernando de Noronha no nordeste.

Sempre que visitarem algum museu histórico, dediquem um tempo a estudar os mapas, se aprende muita coisa.

Para vocês brincarem no final de semana, deixo um link contando a história da Europa através das mudanças no mapa; no site tem as instruções para navegação. Bom passeio!

Saturday, June 14, 2008

Férias Lucrativas

Leitores assíduos e freqüentadores do blog da Marion sabem que estivemos viajando por aí. As viagens sempre são oportunidades de conhecer lugares, pessoas e aprender com a cultura dos outros, mas levando para o lado mais fútil da coisa, são oportunidades de comprar o que não conseguimos onde moramos ou andamos regularmente.

Apenas alguns meses atrás postei sobre a dificuldade de achar certas obras, e nesse sentido posso dizer que estas férias renderam algumas surpresas bem interessantes. Perdi a conta já de há quanto tempo estava procurando pelos livros da Marion Zimmer Bradley e seu ponto de vista feminino sobre o mundo arturiano; acho que fácil uns três anos de busca. Não que não encontram-se os livros para comprar, o problema era nunca encontrar o primeiro livro, nem para venda on-line. Cansei de me cadastrar em sites de livrarias online solicitando o aviso quando este primeiro livro, sempre presente nos catálogos porém inexistente como livro em si. Provavelmente o motivo disso seja a distância entre o primeiro livro e os outros, já que enquanto o primeiro é de 1979, os restantes são todos da década do 90.

Nesta viagem a BsAs visitamos a livraria "El Ateneo", e tenho certeza que minha Marion vai contar em detalhes no blog dela, por isso não vou adiantar mais. O fato é que enquanto passeávamos na livraria, lembramos da outra Marion e fui buscar um vendedor para perguntar pelos livros. Fui súper-híper bem atendido por uma vendedora que me indicou "na lata" onde estavam os livros, assim como a ordem deles e ainda se prontificou para plastificá-los para não estragar na viagem. Olha, nunca me atenderam assim em livraria nenhuma. Resumindo, posso dizer agora que entre a lista de livros que ocupam espaço e aguardam sua vez na prateleira arturiana conto com os três volumes a coleção de Avalon, e ainda em espanhol!


  • Las Nieblas de Avalon (1979)
  • La Casa del Bosque (1993)
  • La Dama de Avalon (1997)

Sim, eu sei que tem mais livros da série de Avalon, mas os outros foram finalizados ou mesmo escritos pela filha da autora. Para quem tiver curiosidade sobre os outros trabalhos, deixo este link.

Y Como Si Esto Fuera Poco...

Essa frase acima é um clássico dos vendedores ambulantes que perambulam ruidosamente nos trens, ônibus e ruas de Buenos Aires, para dar um tom promocional às bugigangas que tentam te empurrar. Mas foi bem isso o que lembrei ontem quando passeando no shopping aqui perto de casa entramos na Saraiva e dei de cara com um livro capa dura, com o cabo de uma espada como arte de capa, e um nome que não podia ignorar:


Três volumes do livro estavam dando sopa na prateleira (em diferentes estados de conservação), na seção de livros grandes de capa dura, aqueles livros que todos conhecemos com um monte de fotos sobre arquitetura, estátuas, prédios, flores, cubismo e por aí vai. Esses livros são conhecidos por serem caros, mas como não se paga por olhar foi o que fiz.
O primeiro destaque é para o autor, provavelmente um dos arturólogos mais respeitados no mundo académico, o senhor John Matthews (talvez vocês lembrem de um outro livrinho editado por ele).
Quando passamos as folhas do livro junto com a Marion, começamos a rir dentro da livraria. De fato, o livro tem toda a cara deste blog:


É como se alguém tivesse simplesmente decidido paginar apropriadamente os conteúdos que escrevo a quase um ano e fazer um livro. Textos sobre o Arthur histórico, o da lenda, Merlin, a távola, a busca do graal...


Era um festim para os olhos que não podia recusar. Enquanto isso, Marion levou um dos livros até os leitores de preço, não vou dizer quanto custou mas a pechincha foi tal que comprei dois, um para ficar aqui em casa e o outro para dar de presente, que aliás o casal de homenageados acaba de descobrir que vai ganhar assim que leu esta frase, por apreciar tanto quanto eu estas histórias.
Enfim, posso dizer que estas duas semanas foram bem lucrativas, afinal quem diria que ia fazer tão bons negócios literários... Agora vou pensar no post aniversário do blog.

Até!

Friday, June 6, 2008

A Pedra Artognou

Um incêndio nos promontórios de Tintagel mudou a história conhecida da arqueologia do período medieval conhecido como "a era das trevas". O fogo se espalhou pela grama, percorrendo o morro e suas formações de pedra, tirando a terra descobrindo velhas construções, mantidas a salvo da ação do clima durante séculos. Assim, apareceram construções que revelavam não apenas uma construção "provavelmente cristã", mas um importante e conhecido centro comercial, usado como ponto de intercâmbio de mercadorias entre navegantes, muito mais popular do que se imaginava.
Logicamente, isso trouxe os holofotes para Tintagel e suas construções. As escavações que começaram em 1990 foram revelando cada vez mais detalhes, novos achados, mas dessa vez quero falar de um em particular...

A-R-T.. ai meu Deus...


Imaginem o suor, o tédio de um escavador arqueológico. A escovinha na mão para não estragar nada. O cuidado meticuloso, a velocidade nula do progresso escavando com uma ferramenta tão simples. Vamos dar um nome ao nosso escavador, Kevin Brady. Vamos colocar uma data também, o 4 de Julho de 1998.
Estava Kevin escavando, pensando na sua vida, em como doíam seus joelhos por ficar abaixado. Na fome que estava dando. Na sensação do pó, o sabor de terra, misturado com o sal carregado no ar do vento do mar. E sem perceber, achou um pedacinho de pedra, com formato diferente. Começou a escavar com mais cuidado, descobrindo a pedra. O formato era bem diferente, e sua experiência lhe disse isso. Foi escavando devagar, com a paciência que vem do treino de anos.
Sim, era um achado. Aos poucos foi descobrindo mais, e percebeu o que parecia uma inscrição na pedra. Sim! Eram letras, ele sabia. Limpou um pouco mais, e foi descobrindo as letras. A... R... T... Não, não é possível... Ai meu Deus... O que foi que encontrei ?!?!?

Tirando o lado teatral, o nome, lugar e data são corretíssimos, e correspondem ao achado da pedra conhecida como Artognou. Para dar ênfase à descoberta, vamos dar um pouco de conteúdo histórico arturiano, na vertente que conhecemos por Geoffrey de Monmouth no seu "Historia Regum Britanniae" (história dos reis da Britania) de 1136.

Lembram do caso de Uther e Igraine? Uther se engraçou com a mulher de outro rei, mas ela como mulher fiel não quis nem saber de Uther. Assim, Merlin que sabia de tudo e conhecia o desígnio dos tempos, deu ao Uther a aparência do esposo de Igraine, e assim ele chegou aos aposentos dela e consumou sua paixão. Desse furtivo encontro, nasceu o jovem Arthur, que foi criado por Sir Ector sem saber das suas origens. O que não contei para vocês é que o lugar onde o ato foi consumado e o lugar onde Arthur nasceu foi exatamente no castelo de Tintagel. Agora entendem a expressão do Kevin. Eu ia ter um treco.

Pedra sobre pedra

A pedra, uma laje de 35 por 20 cm e com 1 cm de espessura foi provavelmente a tampa de uma drenagem, primeiro atribuída ao século 7 mas em base a outros estudos foi posteriormente datada como do século 6. A peça não está inteira, porém evidencia duas inscrições nítidas. A primeira, em letras garrafais, representa 4 caracteres do fim do período romano. A segunda, menor, menos profunda porém totalmente legível e a que chamou a atenção de todos. Trata-se de uma inscrição em latim, onde as 5 linhas podem ler-se assim:

+ PATER | COLIAVIFICIT | ARTOGNOU | COL[.] | FICIT

Que posteriormente foi lida assim:
+ PATER COLI AVI FICIT ARTOGNOU COL[I] FICIT


A tradução feita por Charles Thomas era "Artognou (PN), Pai de um descendente de Coll (PN), tem feito isto". Vamos combinar que não faz muito sentido, até porque na época as pessoas se explicavam mais, como por exemplo davam os motivos de uma determinada construção. Gordon Machan examinou a pedra novamente, e detectou um "N" faltando após PATER, o que muda completamente a leitura:

+ PATERN[-] COLIAVI FICIT ARTOGNOU COL[I] FICIT

E depois extendido por Machan para:
+ PATERN[OSTER] COLIAVI FICIT ARTOGNOU [MEMORIAM] COL[IAVI] FICIT

Agora lemos "Artognou ergueu este memorial de Colus, seu avô". Embora faça muito mais sentido e seja esta a expressão mais aceita hoje, tudo parte do pressuposto que as letras faltantes sejam as que Machan concluiu na sua dedução.

Robert M. Vermaat (de quem referenciei parte do texto acima) propõe outras letras como faltantes, por exemplo +PATERN[US] ou mesmo +PATERN[IUS]. Nesse caso, podemos transformar a frase até chegar nisso aqui:

+ PATERN[US FILIUS] COLIAVI FICIT ARTOGNOU [MEMORIAM] COL[IAVI] FICIT

Cuja tradução aproximada seria "Paternus filho de Colus ergueu isto em memória de Artognou".

Enfim, o fato é que este achado não foi capaz de revelar o significado de nenhum mistério sobre a existência de Arthur, mas tumultou todo o mundinho arqueológico pelo significado "semiótico" de uma pedra falando Artognov encontrada logo em Tintagel. E é claro, isto serviu para confirmar a teoria de que Tintagel foi uma cidade importante, ao ponto de ter monumentos ou memoriais em homenagem de pessoas importantes, lordes, barões, e quem sabe até reis...

Gostaram do post automático? Comentem! Até a semana que vem!