Friday, October 17, 2008

Camelot 3000 - Arthur no futuro!

Aconteceu, por acaso, que buscando uma e outra coisa na internet dei de cara com um gibi. Por curioso que pareça, no meu post anterior contei que o Prince Valiant tem toda a cara de ter nascido de um gibi, mas neste caso os quadrinhos não são sobre ele.


Uma série de 12 episódios escrita em entre 1982 e1985 veio contar uma história diferente. Olha só:

No ano 3000, a Terra é invadida por alienígenas, e os líderes do mundo se esforçam para enfrentar esta crise. Como a lenda conta, o Rei Arthur não morreu, mas descansa e aguarda para retornar quando sua amada Britania precisar dele... E teria um momento mais idôneo para ele retornar? Por um acaso, um zé mané tromba com um túmulo em uma escavação em Stonehenge, e dela surge Arthur para salvar a pátria. Com ele, outros personagens aparecem aos poucos (como Merlin por exemplo), mas a grande sacada é que os cavaleiros e outros personagens importantes da trama simplesmente se incorporam no corpo de pessoas vivas.

O gibi tem lados bons e lados ruins. Vamos ao ruim primeiro:

Os textos estão muiiiito ultrapassados, datados eu diria. Lendo algumas frases e olhando desenhos vemos que os ETs tem cara de insetos, andam como gente, usam armas "laser"... digamos, todo bem óbvio. O tom de discussão política envolve o confronto entre as potências da USA vs. URSS, e outras coisas bem gritantes dizendo "eu fui escrito nos começos dos 80". Ainda bem que tudo isso pode ser relevado, e até pode ser divertido como uma viagem no tempo.

Quase Cult

O lado bom é que este gibi abriu caminho trazendo um discurso adulto, e uma nova leitura à lenda arturiana; tudo bem que não é uma série que se destaque pela inventiva e criatividade, mas deu novo sentido aos personagens colocando-os em um cenário totalmente inusitado.O triângulo entre Arthur, Guinevere e Lancelot é recontado, assim como a busca do Graal e outros tantos eventos que fazem parte da lenda original.
Sobre o gibi, o roteiro é de by Mike W. Barr, desenhista Brian Bolland , e coloristas Bruce Patterson (1-6), Dick Giordano (6), e Terry Austin (7-12), publicado pela DC Comics. Como disse no começo, foi publicado entre 82 e 85, publicado novamente em 1998 encadernada em uma única edição, e agora reestréia em uma edição de coleccionador em capa dura, que está em pré-venda e tem data marcada para o 2 de Dezembro de 2008. Papai Noel, pensa nisso...

Deixo com vocês a primeira edição escaneada (de onde tirei a capa que ilustra o post), se divirtam lendo comigo o renascer do Arthur... Para ler, basta clicar em cada imagem. Detalhe: podem baixar as imagems ampliadas com click-direito e escolhendo "salvar link", ou com click-direito na imagem ampliada e usando "salvar imagem". Boa leitura!

Pág.01-05


Pág.06-10


Pág.11-15


Pág.16-20


Pág.21-25


Mais nos próximos gibis! Até a semana que vem!

Saturday, October 11, 2008

O Príncipe Valente

Prince Valiant, ou O Príncipe Valente, é um dos mais recentes acréscimos à lenda arturiana. Recente em termos; é recente considerando desde quando a lenda arturiana existe em si, mas para os nossos dias internéticos até que já tem seu tempinho.

O Sylar Medieval.

A idéia de escrever sobre o Prince Valiant veio por aparecer como vilão no segundo episódio do novo seriado "Merlin" da BBC, do qual falei apenas dois posts atrás. Encontrei mais gente revoltada com as reformas da história, com argumentos convincentes diria, mas teve uma preocupação em mencionar um fator que eu não tinha me mancado. As crianças que assistirem este seriado terão essa versão como a primeira, o que de certa forma é muito prejudicial. Concordo que afinal lenda é lenda, mas o risco de deseducar é alto. Ainda bem que tem blogs como o meu, heehee! A mensagem para os pais é: Coloquem as crianças para ler, seja em livros, seja no computador. A questão não é o meio, é o conteúdo.

New Kid On The Block

Primeira parada: Sir Thomas Malory. Procurei no livro de ponta a ponta, no índice, no glossário, e até na versão digital (onde procurar é muiiiito mais fácil). Nada de Prince Valiant. Aí eu me disse "Êpa, aqui tem coisa rara...". Marion tá de testemunha que falei isso mesmo. Bom, o fato é que eu lembro do nome, de ter ouvido "Prince Valiant" e "Arthur" na mesma conversa, na mesma linha, mas o fato de não localizar nada sobre ele no Le Morte d'Arthur de 1485 quer dizer que não vai ter referências dele nem nos livros do Chrétien, nem no Historia Britannae de Nennius, nem em nada anterior ao período medieval. Talvez, e somente talvez, tenha alguma referência nos contos do T.H.White, que são bem mais recentes, ou mesmo nos textos do Christian de Montella, contemporâneo nosso, mas não pesquisei nesse material até porque não vivo de blogar. Quem sabe este post não ganhe um update mais na frente.

Para não dizer que não encontrei nada no Malory, tem a menção do Sir Villiards O Valente, nomeado cavaleiro pelo Sir Lancelot, e mais tarde nomeado conde de Bearn também pelo Lancelot; acontece que no Malory, Lancelot fica dono de boa parte da França e da Itália, e na que sería sua última viagem ao território francês ele não somente divide as terras como coloca condes e duques para governar cada uma, homens da sua confiança. Isto ocorre no cap. 18 do segundo livro, bem perto do fim.

Então, se não há referências ao tal Príncipe Valente, de onde ele veio?

Heroi dos Quadrinhos

A referência mais antiga que achei foi um gibi. É. "Prince Valiant in The Days of King Arthur" é um gibi de 1937-1938 escrito por Harold P. Foster, que hoje podemos localizar em diferentes impressões como coletâneas por volumes. Foi produzido um livro de capa dura para cada ano da tirinha, usando cópias da edição colorida publicada no Sunday. Entre os itens de colecionador mais raros que encontrei na internet, tem um disco em vinil com as histórias gravadas em formato de conto. Isso é que é um podcast do passado.

Hal Foster (como assina nos gibis) escrevia a tirinha do Tarzan quando foi requisitado para uma nova tirinha para uma série de jornais. Inspirado nos ideais da cavalaria e dos tempos medievais, távola redonda e etcéteras, ele criou o tira "Derek, Son of Thane". A tirinha estava ótima, a idéia era excelente, mas o nome era uma caca. Então simplificaram para "Prince Valiant", e foi um sucesso estrondoso.

A história no gibi se destacou por vários fatores:
  • A proposta de mostrar os tempos medievais foi muito fiel nas suas referências.
  • Os heróis não eram perfeitos, tinham seus erros, eram humanos como qualquer um.
  • Os vilões tinham também sua pontinha de nobreza eventual.
  • Os personagens envelheceram naturalmente com os anos.
  • A humanização deu lugar a uma mistura única de dramas familiares e fantasia.
A história ocorria principalmente em Camelot da Britania, mas os contos levaram os personagens para os lugares mais insólitos, como a misteriosa China e até o deserto do Sahara.

Herói Revisitado

O Prince Valiant serviu de inspiração a outras artes também, não morreu nos quadrinhos. A Fox produziu um filme em 1954, que conforme o IMDB "conta a história de um jovem príncipe Viking ansioso por formar parte da corte de cavaleiros do Rei Arthur, e assim ajudar seu exilado pai a retomar o trono das suas terras". Curiosamente, o conto do Chrétien "Cliges, ou a que se fingiu de morta", escrito no século 12, conta uma história similar sobre um tal de Alexandre, Príncipe da Constantinopla, que viaja de remotas terras para se formar cavaleiro na corte do Arthur. Curioso. Quem sabe não achei minha referência ao tal "príncipe valente".

Mais recente ainda, houve um desenho animado produzido em 1991 pela Hearst Entertainment, a mesma do Popeye, e com uma cara total de Caverna do Dragão. Olha só:




Finalmente, mais um filme, desta vez produzido na Alemanha em 1997 com o mesmo nome. Pouca info sobre o filme, e pelo pouco que vi tem toda a cara de ser de baixo orçamento. Se achar até assisto, já sabem como eu sou.
A capa de fato não diz muito, e a pontuação de 4.8 no IMDB também não ajuda. Mas, considerando tudo o que já assisti, acho difícil me surpreender com alguma coisa...

Até a semana que vem!

Saturday, October 4, 2008

Pedra Sobre Pedra

Este post foi sugerido indiretamente pela minha Marion baseado em uma reportagem que ela encontrou por acaso na internet.
Fiz uma busca no meu próprio blog sobre Stonehenge, e para meu espanto, ainda não fiz um post dedicado somente a ele, mesmo dedicando alguns parágrafos perdidos em alguns posts que tinham relação com o famoso monumento de pedra, como o lance de ser o túmulo do Uther, o Merlin ter transportado as pedras, etc, etc...
Faz um certo tempo ouvi falar do trabalho de um grupo de arqueólogos interessados em aplicar as técnicas atuais para determinar a idade aproximada das pedras, das escavações e dos objetos encontrados por lá; a idéia é aplicar o famoso Carbono 14 dos filmes para determinar com certo grau de acerto quando exatamente essas pedras foram parar a 250 km do seu lugar original para formar um círculo calendário. Pois é. As tais pedras vieram do sul do País de Gales, e formam o que provavelmente seja o monumento pré-histórico mais famoso da humanidade.
Então, os cientistas extraíram várias amostras orgânicas do local, tiradas da única escavação permitida pelas autoridades; um buraco quadrado de 3,5 mts por 2,5 mts entre os dois círculos de pedra.

Cientistas descobrem que o Laser Disc é pré-histórico.

O resultado dos testes com radiocarbono deu valores entre 2400 e 2200 a.C., portanto os cientistas disseram que "tá na média de 2300 a.C.". Resposta brilhante a deles, imagino quanto tempo levaram para chegar na tal "média"...
OK, pra gente isso não diz nada, afinal passar do 2600 a.C para 2300 a.C. dá exatamente na mesma pra nós, mas para os cientistas diz muita coisa. O fato das pedras serem 300 anos mais "novas" revela um pouco mais sobre o período histórico na qual foram erguidas, sobre a tecnologia disponível e sobre os costumes da população em geral, o nível social, hierarquias, etc.
Uma das maiores teorias hoje é que Stonehenge tenha sido um centro de curas, já que nas proximidades das pedras foram encontrados muitos corpos com ferimentos graves, ou mesmo evidências de doenças fatais, e pelas pesquisas feitas nesses corpos foi possível determinar também que eles não eram da região; quer dizer, gente ferida e doente que viajou ou foi mesmo trazida até o lugar.
Entre estes corpos, um particularmente chama a atenção, que ganho o apelido de "Arqueiro de Armesbury" encontrado a quase 5 Km de Stonehenge e que curiosamente bate no radiocarbono a idade das pedras. O tal Arqueiro de Armesbury é famoso pelas riquezas encontradas no seu túmulo (momento Indiana Jones / Lara Croft agora), muitas delas peças de metal trabalhadas, e que evidenciavam que este homem viajou dos Alpes europeus até a remota Inglaterra para ver as pedras.
Nem todo mundo aceita a teoria do centro de curas; outros cientistas defendem que o tal Arqueiro só foi até Stonehenge para vender suas tralhas, considerando quanto as pedras deviam ser famosas e quantas pessoas ricas o suficiente para viajar poderiam estar lá. Digamos, um muambero pré-histórico.
Resumindo, a reportagem não diz muita coisa na verdade, mas ao mesmo tempo traz o assunto à tona novamente; para quem quiser saber meeeeesmo sobre Stonehenge, recomendo o site oficial "www.stonehenge.com.uk", ou mesmo para quem tiver a sorte de "encontrar" por aí, tem um ótimo documentário da BBC que conta inúmeros detalhes sobre os círculos de pedra, especialmente o que deu assunto a este post.

Até a semana que vem!

Saturday, September 27, 2008

Temporada de Seriados

Começou a temporada de seriados lá fora, e com isso a banda larga no Brasil sentiu o impacto de milhões de usuários baixando de tudo, e entre eles as turminhas de amiguinhos felizes que perdem uma madrugada para serem os primeiros a lançar uma legenda em português.
Assisti algumas coisas, outras estão na fila ainda. Tem seriados pelos que estava ansioso pela volta, mas esta "Niú Siasum" trouxe algumas novidades bem bacanas. E entre elas, para espanto geral da galera, um seriado arturiano produzido pela BBC.

Merlin

Assisti o primeiro episódio ontem à noite. Vou contar alguns fatos do seriado, que embora sejam espóilers (detalhes da trama) não interferem para quem vai assistir. São meras comparações entre a história apresentada no seriado, e a que conheço como tradicional.

O seriado conta a história de um jovem Merlin, enviado pela sua mãe para viver na cidade grande, neste caso Camelot, atualmente governada pelo Rei Uther Pendragon, um rei que há 20 anos proibe a manifestação e prática da magia no seu reino.

A frase acima resume os primeiros 3 minutos do seriado, e já revela bastante sobre o rumo das coisas. Primeiro, acho ótimo e muito bem-vindo um seriado que escolheu contar a história épica-romântica, o período dos cavaleiros medievais, donzelas na torre e etc. Fascínio total por essa fase. Vai ver já tive uma vida nela, sei lá. A segunda questão é que encontramos Uther governando Camelot há 20 anos, sem intervenção do Merlin; quer dizer, o seriado ignora completamente a linha tradicional e parte para uma nova história, utilizando os mesmos personagens e período pseudo-histórico. Para os esquecidinhos, Uther somente chegou ao reinado depois de derrotar o rei Gorlois e possuir Igraine, entrando no castelo de Gorlois em Tintagel fantasiado como o próprio Gorlois através de um feitiço do Merlin. Quer dizer, se Uther está "reinando" em Camelot há 20 anos e somente agora aparece Merlin como um adolescente, não preciso saber mais para descartar tudo o que conheço da história, e abrir a mente como bom espírito para ouvir uma história completamente diferente da que conheço. E em terceiro lugar, meu caro Uther Pendragon se revela um rei avesso à magia, o que coloca o Merlin em péssimos lençóis.
A produção, em linhas gerais, tem reduções orçamentarias. Tem um certo gasto em efeitos especiais, mas tem cenas onde percebe-se um fundo pintado, ou mesmo falta de talento ao interpretar no elenco desconhecido.
Outras grandes inversões na trama são mostrar uma jovem Morgana muito bonita, e uma Guinevere fulera. Fulera não, feia mesmo. Nada contra a moça, mas acho que foi liberdade autoral demais colocar uma Guinevere assim. Subitamente bateu saudade da "ruiva fatal" dos textos do Cornwell. Foi também um exagero, mas caiu muito bem no livro e na história que se propôs contar.
Não me atrevo a contar mais para não queimar o filme de quem for assistir; resumindo muito, o seriado não me empolgou, mas quero dar tempo a ele e vou acompanhá-lo, para ver como evolui. Nem sempre é a melhor postura se deixar levar pela primeira impressão; acredito venham surpresas pela frente.

Site Oficial
Até a semana que vem!

Saturday, September 20, 2008

Spam A Lot

Os musicais andam rondando minha cabeça, e de todo mundo. Fora a histeria coletiva por causa do show da Madonna, trago a atenção para musicais como os de antigamente, no estilo da Broadway. A primeira referência obvia nestes dias é o Mamma Mia, baseado nas músicas dos elfos do Abba, que se recusa a sair da minha cabeça e da trilha musical do CPD de casa, tocando maciçamente no note da Marion, seja como youtube ou mesmo como mp3. Tecnologia é para essas coisas, e afinal eu gosto das músicas também, não vou negar. Acho bem bacanas e divertidas.
Outro musical que serve de exemplo bem lembrado nestes dias é o "Hello Dolly" (1969), musical que ilustra e inspira a história de amor por trás do Wall-e. Cenas de dança clássicas, coreografias e músicas empolgantes, o que faz os musicais serem tão populares e sempre voltar de uma forma ou outra ao público.

Então, tudo muito legal, mas o que tem a ver com o Arthur?

Nos primórdios do blog, quando falei sobre o Arthur pop, comentei sobre o filme do grupo británico Monty Python, chamado "Monty Python and The Holy Grail". Este grupo famoso por filmes como "A vida de Brian" produz um tipo de humor típicamente británico, com piadas bobas que juntas formam uma obra magistral. Eis que eles, além de produzirem o filme, tiveram a idéia de produzir também um musical baseado no filme, na palavra deles "carinhosamente roubado do filme". E assim o nosso Arthur ganhou um musical esculachado e divertido, ou como a crítica do Sunday Times disse, "é a idiotice transformada em obra de arte".
Claro que teve peças de teatro, obras e filmes com atores de peso como o Sean Connery, mas acho que no fim, no fim mesmo, o que mais combina com meu blog é o Spam-a-lot. Esse foi o nome que deram para o musical, que continua em cartaz em várias cidades.
Querem saber mais? O site oficial vale o tempo que passei nele, visitando e rindo com os comentários.
Como propus no post anterior, se alguém estiver por acaso em Las Vegas ou na Broadway e passar pelo show, além do comentário me tragam o pin dos Cavaleiros que dizem Ni! como lembrança... para mim essa cena do filme é inesquecível.

Ni pra cês também, e até a semana que vem!!

Saturday, September 13, 2008

Cabeça de Muié

Estou na página 276 do "Las Nieblas de Avalón" (Brumas de Avalon) comprado em Buenos Aires, e não estou nem perto de terminar o livro, só para constar.
A última página deste livro é a 624, e é o livro mais densamente impresso que vi na minha vida. A impressão não deixou lugar sequer para segurar o livro aberto, o texto vai da cola no meio até a borda do papel, e a mesma coisa por cima e por baixo; apenas uma linha de texto abaixo isolada para mencionar o número da página. O exagero é tal que o livro termina exatamente na última linha possível da última página, e não tem papel sobrando, já vem a capa de papelão. O livro é trabalhoso de ler, a tipografia não é grande e tem pouco espaçamento, mas mesmo com todas estas dificuldades estou fazendo meu caminho (devagarrrr) até o fim. Não que não conheça a história, mas quero ter o prazer de lê-la, e tirar minhas próprias conclusões.

Ia comentar o livro somente quando terminá-lo, mas ao passo que vai é provável que esqueça sutilezas interessantes até chegar no fim e escrever de fato.

Vou lançar de tempos em tempos alguns comentários sobre o livro, pode ser em formato de post exclusivo ou mesmo como comentário curto dentro de outros posts; vai de lua, que aliás é um símbolo importante e recorrente no conto das Brumas.

Quem assistiu o filme de Brumas começa com vantagem. A produção de TV, mesmo longa de assistir, é infinitamente menor que o livro em termos de detalhes, e vai ao que interessa; não que o resto não seja interessante, mas tem segmentos do livro que parecem ser lero-lero literário. O lero-lero literário é a arte de esticar o andamento do conto, ao melhor estilo dos autores de novela televisiva, porque qualquer novela de 9 meses poderia durar menos de um mês, se for aos fatos mesmo. Como ia dizendo, a vantagem de ver o filme antes é ter uma linha de tempo mental clara sobre os acontecimentos, e perceber mentalmente em qual ponto da história nos encontramos; sem essa ajuda, é bem provável que os fatos fiquem um pouco confusos.

Muito bem, vamos ao livro mais decididamente feminista que li na minha vida (e essa fala não é minha... tá bom, é sim). Marion Zimmer Bradley era uma defensora dos direitos das mulheres, e freqüentemente beirava o lado radical do feminismo; e o livro transparece isso nítidamente. Os homens do livro são apenas parte do cenário, e somente aparecem quando é interessante para a trama e para as mulheres na história que eles se encontrem por perto. Pode ser impressão minha, mas afinal, o blog é meu, se não escrevo minhas impressões, vou escrever quais?

Sobre Veados e Chá de Cogumelos

Muito bem, vamos a uma das seqüências mais clássicas. Morgana, filha de Igraine e Gorlois (a mãe primeiro...), estava morando em Avalon sob os cuidados da sua tia, Vivian. Vivian é sacerdotisa de Avalon, à la Mãe Superiora, dona da sabedoria, voz da Deusa e etc. Morgana tem por missão substituir sua tia quando ela se retirar, portanto tem um peso enorme em cima dela para ser sempre a melhor, a mais digna, uma verdadeira filha da Deusa. Ela obedece cegamente, segue todos os rituais, se consagrou a Deusa em corpo e mente.
Existe um ritual antigo druida, onde um jovem caça um cervo lutando apenas com suas mãos e uma adaga; este confronto é mortal, e um deles sempre sai morto, seja o cervo ou a outra besta que foi atrás, leia-se o Gamo-mor. Uma vez que o jovem consegue a vitória, ele ganha um chá de cogumelo do capeta, deixam ele pelado, colocam pinturas no rosto, jogam o couro ensangüentado do cervo que caçou por cima dele, colocam uma máscara com chifres de veado, e o levam para uma caverna. Básicamente como em todas as despedidas de solteiro.
Nesta caverna, aguarda uma jovem, que também ganhou o chá de cogumelo, e que simplesmente se entrega ao moço. Desta noite de "loucura" costuma nascer um filho, que vem a ser o filho da Deusa, consagrado através dos rituais de Beltane.
Acontece por acaso (acaso nada! tudo tramóia da Vivian!!) que a jovem é Morgana, e o moço... Arthur, seu jovem meio-irmão. E o que não era para descobrirem, descobrem logo depois de transar. Sim, Arthur sacou, mesmo confundido ainda pelo chá, que acabou de "ritualizar" a sua própria irmã.
Esta armação toda foi obra da Vivian, com um simples motivo: Morgana era decididamente filha do povo das fadas, filha de Igraine, carregando sangue digno e vindo de Avalon. Era a sacerdotisa perfeita, o corpo da Deusa (figurado, tá?) na terra. Arthur, nascido de outra tramóia (do Merlin esta vez), carregava sangue legítimo tanto de Avalon pela sua mãe Igraine, como do Uther, que respeitava os ritos e fora em outros tempos e outras vidas um sacerdote das antigas, dos que conheciam os mistérios e falavam lado a lado com os Deuses não só das Pedras (Stonehenge) como também o Atlantes.

Fumei.
Quer dizer, Marion ZB fumou.
Ou tomou o mesmo chá. Antidoping nela!

Mulheres Ciumentas

Um episódio clássico femenino é o do encontro de Lancelot e Morgana em Avalon, bem prévio ao momento acima. Ocorre que Lancelot é filho de Vivian (Lancelot do Lac, Lancelot do Lago, Vivian, sehora do Lago, senhora de Avalon... tá legal?), portanto isso o faz primo de Morgana, e de tempos em tempos o jovem e galante Lancelot voltava para visitar sua mãe. Ele não tinha a manha de entrar em Avalon sozinho, precisava sempre de uma sacerdotisa capaz de separar as brumas para entrar na ilha. Digamos, tinha um serviço de barquinhos com sacerdotisa de plantão, tipo táxi, que levavam as pessoas para dentro ou fora da ilha. Traduzindo, para que alguém pudesse chegar até a ilha sempre precisava que uma sacerdotisa tivesse a boa vontade de sair e trazê-lo junto para dentro. Em outras palavras, se uma muié não levava o cara para dentro da ilha, ninguém entrava, nem mesmo os barqueiros que faziam a viagem toda hora.
Bom, isso facilita mais ainda o roteiro, já que somente vai ter um macho-alfa zanzando pela ilha quando for "conveniente" para o roteiro, mesmo que o tal seja as vezes inconveniente com as sacerdotisas.
Como dois primos bobos, Morgana e Lancelot foram passear no morro em Avalon, onde ficavam as pedras cerimoniais, um círculo de pedras usados durante os rituais de adivinhação. Desde este ponto era possível enxergar os limites da ilha e a bruma que circundava e protegia a ilha, mantendo o lugar sagrado. Morgana levou uns lanchinhos para o piquenique, e Lancelot se recostou na grama, cansado por cavalgar a noite inteira vai saber de onde até chegar na ilha. E rola um climinha.

Ele comentou, falando baixo:
- Aqui, nesta ilha mágica, resulta fácil sentir a cócega do poder do ar e da terra -afastou o olhar e espreguiçou num bocejo-. Escalar até aqui deve ter me cansado, junto com a cavalgada desta noite. Quero deitar na grama e aproveitar este sol, e comer um pouco do pão que você trouxe.
Morgana o levou até o centro exato do círculo de pedras, pensando que, se ele tivesse qualquer sensibilidade, perceberia o grande poder que tinha naquele lugar.
- Deita na grama, ela irá te recarregar -disse enquanto lhe dava um pão com manteiga e mel. Comeram devagar. Ele pegou na mão dela, brincalhão, para lamber o mel que tinha ficado nos dedos dela.
- Como você é doce, prima - e riu.
Ela sentiu que todo seu corpo ganhou vida nesse toque. Segurou a mão dele para devolver o gesto, mas subitamente a soltou como se estivesse queimando; o que para ele era apenas um jogo, para ela nunca ia ser. Virou as costas, escondendo na grama a face vermelha. A energia do lugar corria pelo seu corpo inteiro, ficando com tanta energia como a própria Deusa.

(...)foram para outro canto, lará lará...(...)

Lancelot perguntou, falando baixo:
- Já participou do fogos de Beltane? Já serviu à Deusa?
- Não - respondeu Morgana, com a voz apagando. - Serei virgem enquanto a Deusa o quiser assim; e bem provável que me reserve para o Grande Matrimônio.
Inclinou a cabeça, para que o cabelo cobrisse seu rosto. Na presença dele era tímida, como si ele fosse capaz de ler seus pensamentos, e adivinhar o desejo que a invadia. Estaria disposta a abandonar sua virgindade se ele o pedisse? Até então, a proibição nunca tinha sido um peso; mas agora era como se entre os dois houvesse uma espada de fogo.
(...) Por fim Lancelot se aproximou dela e deixou um beijo suave na sua testa, na pequena lua azul da sua testa, que ardeu como fogo.
Sua voz foi suave e intensa:
- Todos os deuses me proíbem invadir o que a Deusa reservou para ela, querida prima. Você é tão sagrada como a própria Deusa.
Ele a segurou perto, tremendo. Ela percebeu o tremor, e a felicidade a invadiu, quase dolorosa. Não lembrava mais como era ser feliz, até esse instante.
(...) Se viu refletida nos olhos de Lancelot, e soube que era linda, que ele a desejava, mas que seu amor e respeito por ela eram tão grandes que se obrigava a impor limites.

(...) Deitaram juntos na grama, sem se tocar, cobertos com o manto da capa dele. Morgana dormiu sem sonhar, ciente que tinha as mãos ainda enlaçadas às dele. Ao acordar, sentou para decorar cada linha do rosto dele, com feroz ternura.
(...) Ele acariciou a bochecha dela, e ela o abraçou com todas suas forças, ouvindo seu coração no peito morno. Ele levantou o queixo dela, e seus lábios se encontraram.
- Se você não fosse consagrada à Deusa...- ele murmurou.
- Se não fosse...- respondeu ela.
- Fica perto, deixa te abraçar. Jurei não... pecar.
Ela fechou os olhos, não importava mais. Iam juntar seus lábios mais uma vez, mas Lancelot ficou tenso, como se ouvisse algo imperceptível. Ela se afastou.

- O que é isso? - perguntou ele.
- Não ouço nada - respondeu, tentando ouvir por cima do vento, das aves e do som da água. O som chegou novamente, como um soluço.
- Alguém chora, parece uma criança - disse ele, e se levantou, correndo.
- Pra lá!
(...) Na água, encontraram uma jovem com água até o tornozelo.
- De fato ela está aqui, mas não é uma sacerdotisa - disse Morgana.
Sua beleza era deslumbrante. Branca e dourada, a pele como de marfim, os olhos de um claríssimo azul, o cabelo como ouro vivo. Segurava o vestido tentando não molhá-lo, e chorava desconsolada, estranhamente sem desfigurar o rosto, ficando ainda mais bela.
- O que você faz aqui? - Perguntou Morgana. - Se perdeu por acaso?
A jovem olhou fixamente: - Achei que ninguém pudesse me escutar. Que lugar é este? A terra se mexeu e me encontrei aqui, nas águas. Nunca estive aqui, embora conheça o convento há quase um ano.- E fez o sinal da cruz.
Subitamente Morgana percebeu o ocorrido. O véu tinha se debilitado, como ocorria em pontos de poder muito concentrado; a jovem devia ser poderosa, já que percebia através do véu. Podia ocorrer uma visão fugaz, mas desta vez tinha realmente atravessado a fronteira do outro mundo. Lancelot se apressou em carregar a jovem até terra firme, e a jovem não chorou mais. Olhou para Lancelot com olhos de admiração. E olhou para Morgana.
-Vocè é do povo das fadas? Ia fazer o sinal da cruz mais uma vez, mas parou: Não, você não é um demônio, ou teria sumido com o sinal da cruz. Mas é pequena e feia, como o povo das fadas.
Lancelot falou com firmeza: - Não, não somos demônios. E acho que podemos achar o caminho até esse teu convento. O coração de Morgana virou do avesso ao ver que ele olhava para a desconhecida exatamente do mesmo jeito que ela mesma tinha olhado para ele há apenas uns momentos; com amor e desejo, quase com veneração. Se enxergou com os olhos de Lancelot e os da estranha donzela dourada: pequena, morena, com um signo bárbaro gravado na testa, coberta em lama, os pés sujos, os braços nus. Pequena e feia, como o povo das Fadas. Morgana das fadas. Assim a chamavam quando ainda era pequena, provocando-a. (...)
-Qual é teu nome? - perguntou Lancelot. - Guinevere - respondeu a jovem loura.
- Que nome mais... lindo- murmurou ele. - Digno da dama que o carrega.
Morgana sentiu tanto ódio que achou que ia sumir. As cores do dia tinha sumido na bruma, no pântano. E com eles toda sua felicidade também.


(...) Chegam ao convento... lará lará... (...)

Morgana fechou a bruma, e com ela Lancelot não viu mais o rosto dela, já na segurança do convento.
- Como você fez isso, Morgana?
- Que coisa?
- Subitamente você parecia minha mãe. Alta, distante, quase... irreal. Como de outro mundo. Não devia ter feito isso, assustou essa coitada criança.
Morgana mordeu sua língua com ira.
Depois respondeu, enigmática:
- Sou o que sou, primo. E apertou o passo pela trilha. Tinha frio e estava cansada, como se estivesse doente por dentro. Desejava a solidão da casa das donzelas. Lancelot parecia ter ficado para trás, mas não se importou. Que se virasse para encontrar o caminho, pensou ela.

A todo isto, eu digo: Hein?

Ciúme é o pior sentimento que o ser humano pode sentir. É o motor do ódio, do rancor, e na maioria dos casos o motivo dos piores desentendimentos entre as pessoas. Por isso, lembrem-se crianças: Quando vocês ficam com ciúmes, ficam parecendo pequenos e feios, como o povo das fadas. Ou como o próprio Lancelot falou, "você está parecendo sua mãe".

E para quem tiver coragem, o longíssimo episódio que comentei agora no livro dura o total de 3 páginas. Eu disse que o livro é lento...

Até a semana que vem!

Sunday, September 7, 2008

Utilidade Pública

Post de número 70, quem diria... Tudo bem que teve uns 3 ou 4 que foram comentários curtos mais do que posts, mas ao todo ainda assim é um esforço de pesquisa e tanto ter chegado até aqui.
Porém, tem gente que teve um pouco mais de sorte, e conseguiu achar o que procurava sem ter que pesquisar tanto, apenas googlando e caindo aqui, por mero acaso.

É sobre isso que quero falar hoje, sobre as buscas que o povo faz, e como uma combinação de palavras consegue trazer a galera até aqui.

Quando comecei o blog, decidi ser uma referência em lendas arturianas em idioma português, justamente pela falta total e absoluta de informações na internet; posso dizer que meu objetivo foi atingido, e se fosse por isso poderia simplesmente encerrar o blog e dá-lo por finalizado. Mas, teve uma legião de gente que aos poucos se simpatizaram com meu jeito de escrever; leve, descontraído, trazendo um assunto erudito numa linguagem nova, e como já me dizeram uma vez, "dificil parar de ler, mesmo com teus posts loooongos!". Baita elogio.

Semana passada estive por casualidade no evento de lançamento de um livro, o que me trouxe de novo à cabeça o que disse para mim mesmo faz um tempo: se posso blogar, sem dúvida posso escrever um livro também. E vou fazer isso, mas somente daqui a 10 anos. Por quê esse tempo todo? Questão de moral. Não nasci na Grã Bretanha, não tenho formação de cátedra sobre os assuntos que escrevo, apenas sou muito fuçador e tenho um fanatismo pelas lendas arturianas; e isso não é suficiente para que alguém realmente se interese por um livro da minha autoria. Deixo o texto na minha cabeça; quem souber esperar vai ter recompensas.

Mas tudo bem, no fim estou desviando do assunto. Tem muita gente que chega aqui por fazer buscas na internet; algumas são descaradamente trabalhos de escola, e não duvido que meus textos estejam agora nos cadernos de vários alunos de vai saber qual cursinho, ou mesmo até como conteúdo roubado em outros blogs ou sites. De certa forma, é um jeito de ser prestativo também, e atende a idéia original do blog de divulgar a lenda. Ainda assim, tem muita gente que cai no meu blog por assuntos que não condizem com meu texto, apenas por causa de uma infeliz combinação de palavras na hora de efetuar a busca.

Para ser ainda mais prestativo, vamos ver juntos o que as pessoas procuraram nos últimos 6 meses, olhando o top ten de buscas no meu contador, e responder dentro do possível...

Abril 2008
1) Rainha Guinevere: Beleza, falei dela, claro... essa pessoa achou o que buscava.
2) mmm... não. Aqui não.
3) vide 2)
4) ok, beleza...
5) err.. pode ser. Teve um post sobre isso, origem dos nomes ingleses, normandos.. sobre um livro chamado Early Britain.
6) Talvez... indiretamente.
7) Hein?
8) Vide 4)
9) Ôpa, gostei... essa é mais difícil. Alguém achou o que buscava meeeesmo :-)
10) Nhem... salvo que fale do bobo da corte do rei Arthur, nesse caso até vai.


Maio 2008
Sim, é rotina. Castelo da D... sempre nos primeiros lugares. Deve ser fascinante mesmo, mas aqui não rola.
Meus elogios para as 3 pessoas que procuraram pela história de Lancelot, boa sorte na escola!


Junho 2008
Ariete... de novo 3? Alunos aplicados...

Julho 2008
Catapultas... há uma tendência aqui, ou é impressão minha? O resto que estava caçando nomes era para colocar no cachorro, gato ou mesmo no seu avatar de algum RPG.

Agosto 2008
Inventos... inventos... estudar nem pensar, né? Novamente ariete e catapulta, desta vez um amiguinho se juntou à busca. Agora são 4.

Setembro 2008 (Até agora)

12 buscas por "merlin renata"? Qual é? Rê, me conta depois, tá?
Beijos aos dois que buscaram por Erec et Enide, acertando o nome original da história. Se até o final do mês vierem 4, retiro o beijo e mando estudar.

Até a semana que vem!