Saturday, November 15, 2008

Sir Lamorak de Galis

Na semana passada mostrei alguns kits de bloquinhos de montar inspirados na lenda arturiana; mas um detalhe deveria ter chamado a atenção dos leitores. Um dos kits que mostrei tem por nome "Lamorak e a besta assassina". Afinal, vocês sabem quem é Lamorak?


O Ilustre Desconhecido


Dependendo para quem vocês perguntarem, Lamorak é um completo desconhecido, ou um personagem fundamental na lenda arturiana, mesmo que desenvolva um papel de coadjuvante. Esta diferença gritante de opinião condiz com a fonte consultada; Sir Lamorak de Galis surgiu como um personagem capaz de dar nexo a histórias que a princípio não teriam relação nenhuma.


Vejam só:

A um tempo já escrevi sobre o cavaleiro da charrete, história que viu nascer o Lancelot cavaleiresco e com ele o romance com Guinevere. Esta história foi contada por Chrétien de Troyes, onde Lancelot e Gawain partem para resgatar Guinevere, refém de Meliagrance. Gawain fracassa ao tentar atravessar a Ponte Sob-a-Água, enquanto Lancelot faz a proeza de atravessar a Ponte da Espada e consegue resgatar Guinevere.


Também escrevi sobre um conto muito mais antigo, o de Tristão e Isolda. Com o tempo o conto foi se transformando, até chegar no ponto no qual nosso herói Tristão teve "upgrade" para cavaleiro da távola redonda. Quer dizer, o conto foi incorporado ao lendário dos contos arturianos.


Estes dois contos, totalmente desconexos, acabaram se entrelaçando no texto do Thomas Malory. Sir Lamorak é mencionado pela primeira vez no texto inglês, e com isso um novo sentido foi dado à historia toda. Este novo cavaleiro serve como elemento de liga entre inúmeras histórias; ele pode perfeitamente ser removido sem afetar o desfecho das trilhas principais, mas acaba dando um sentido adicional, um contexto mais rico.


Agora posso me explicar melhor sobre o ilustre desconhecido: para a molecada inglesa, o Thomas Malory é o equivalente a um Shakespeare arturiano; é parte fundamental da história literária do idioma inglês, e com certeza material de estudo para azucrinar crianças levadas. Acho que o melhor equivalente na língua portuguesa seja Camões, cujo valor literário é inestimável. É a riqueza de preservar um texto antigo na sua essência. Por outro lado, quem nunca leu Malory ou o fez superficialmente, conhece provavelmente o roteiro base da lenda arturiana: Arthur puxa a espada, vira rei, casa com Guinevere, tem o rala-e-rola com Lancelot, surge Mordred, todo mundo morre.


É mais ou menos como ver os filmes do Harry Potter sem ler os livros; se pega a idéia principal do livro, mas somem todas as histórias paralelas que engordam o texto e enriquecem a leitura.


Afinal, quem é Lamorak?


Filho do Rei Pellinore, ele é o terceiro cavaleiro mais importante da vertente cavaleiresca ou romântica do texto do Malory, apenas atrás de Tristão e Lancelot, como segundo e primeiro respectivamente (embora eu acho que Gawain era para estar em segundo lugar, e que o Tristão está de penetra na lista).


Entre muitas aventuras, enfrentou 30 cavaleiros sozinho, até chegar Tristão para ajudá-lo; Lamorak e Tristão se enfrentaram várias vezes, até chegarem a um acordo de cavaleiros e cada um tomar seu rumo.


A história mais importante e cabeluda envolvendo Sir Lamorak é seu romance com a rainha de Ockney, Morgause, viúva do Rei Lot.


O detalhe bizarro da história é que o Rei Lot foi morto pelo Rei Pellinore, pai do Lamorak... Os filhos de Lot e Morgause acabaram sabendo do rolo de Lamorak e sua mãe. Assim, Gawain mandou Gaheris ficar de tocaia para pegá-los no flagra. Encontrou os dois nús na cama, e os atacou. Morgause morreu de forma nada romântica (sem spoilers desta vez...), mas a sorte de Lamorak não seria decidida nesse quarto. Para Gaheris, seria uma desonra matar um cavaleiro desarmado, e por isso o deixou ir.


A rixa entre os filhos do Rei Lot e Lamorak continuou por um longo tempo, com várias tentativas de assassinar Lamorak. Após tantas tentativas, era inevitável que isso acontecesse, fato que terminou de sujar a honra dos filhos de Lot. Só como detalhe, não esqueçam que Mordred era irmão de criação de Gawain, Gaheris, Agravain... E todos lembram como acabou o encontro entre Arthur e Mordred. Os problemas entre Arthur e os filhos de Lot são uma constante nos contos de Malory.


O Nexo


O que no fim não contei ainda é o papel de junção feito por Lamorak. No conto do seqüestro de Guinevere por Meliagrance, Lamorak encontra com Lancelot na bosque, e com muitos outros cavaleiros de diferentes histórias. Por um lado, Lamorak escuta Meliagrance dentro de uma capela, pedindo que Guinevere perceba seu amor e se apaixone por ele; Lamorak encontra mais tarde o Meliagrance no bosque, e diz que eles deviam justar, porque não concordava que Guinevere fosse a mais bela. Para ele, esse lugar era de Morgause. E assim os dois brigaram até aparecer Tristão, que os separou.


Em outras partes do conto, Tristão e Lamorak se encontram, brigam, se amigam, se encontram novamente, arranjam uma coisa qualquer para brigar, se separam de novo, e por aí vai. Quando Lamorak morre por obra de Gawain e seus irmãos, Tristão estava amiguinho do Lamorak, e lamentou muito sua morte. Ele se encontrou com os filhos de Lot em um torneio, e depois de um bate-boca o Tristão caiu fora, mas Agravain e Gaheris não se conformaram e foram atrás dele. Tristão acabou vencendo os dois, e seguiu seu caminho.


Assim, Lamorak é escalado no livro muitas vezes para servir de apoio ao roteiro, vencendo muitas justas, se metendo em muitas encrencas, e dando um sabor diferente à versão então conhecida de Troyes. Portanto, Lamorak é uma figura bem conhecida nos países da Grã-Bretanha, mas um bom desconhecido fora dela. Legal, né?


Até a semana que vem!


Saturday, November 8, 2008

Mundo de Brinquedo

Eu era uma criança complicada. Não que fosse uma criança que dava trabalho ou que meus pais reclamassem de mim, mas eram meus problemas de saúde que complicavam minha existência, e a dos que estavam à minha volta. Tive vários probleminhas, alguns normais de toda criança, outros um tanto mais graves; o fato é que fiquei muito tempo de cama, e mais tempo ainda dentro de casa, quando era para brincar com outras crianças, correr e me desenvolver no físico.

Como isso não aconteceu, acabei desenvolvendo mais o lado intelectual; brinquei muito de bloquinhos de montar, tanto que meus bloquinhos sempre chegavam ao fim da sua vida sem conseguir colar mais um nos outros; eles simplesmente desmontavam.

Tenho uma saudade boa desses tempos de engenheiro de idéias. Eu era capaz de criar pequenos mundos, onde carros, aviões, dinossauros e tudo o que criança adora surgia das minhas mãos. Nessa época, eu não era ciente do meu gosto por lendas arturianas; hoje penso como teria sido fazer castelos, pontes, catapultas e tantas outras estruturas.

Bom, com toda essa historinha que contei talvez tenham agora a dimensão do que para mim foi uma grata descoberta: a Mega Bloks (marca de bloquinhos de montar muito popular aqui no Brasil) lançou uma coleção sobre a lenda arturiana.

Lamorak e A Besta Assassina

Além do lado fantasioso e épico que espero encontrar em um brinquedo, me chamou muito a atenção ver nomes um pouco mais obscuros da lenda, nomes não tão conhecidos como os do Arthur, Guinevere e Lancelot. O mais legal disso é despertar na criançada a curiosidade por saber mais, e quem sabe forçar os pais a procurar pela origem das lendas.


Batalha na Ponte

Não vi nenhum destes brinquedos de perto, mas podem ter certeza que vou prestar mais atenção da próxima vez que visitar uma loja de brinquedos.

Até a semana que vem!

Saturday, November 1, 2008

Fazendo História

No post da semana passada falei um pouco sobre Geoffrey de Monmouth, e como seu trabalho reviveu as lembranças de um tal Rei Uther, pai de um tal Rei Arthur. Eu disse também que ele usou como fonte de informações textos antigos, dos séculos V e VI; aliás, essa foi uma as primeiras coisas que disse no blog, em Junho de 2007.

Essas tais origens da lenda arturiana sempre foram ponto de discussão. Sempre que falo sobre contos como os de Tristão e Isolda, ou mesmo do Eric e Enide, comento que a base dessas histórias são antigas lendas celtas com outros personagens, mas seguindo a mesma linha argumental. Já a lenda arturiana é por sí uma compilação de histórias. Sinto uma pitadinha de orgulho do post que escrevi na Páscoa sobre o Ciclo Vulgato, que exemplifica perfeitamente o que estou dizendo.

Ontem, eram 11 da noite, estava cansado, e ainda sem idéias sobre meu post de hoje. Decidi resgatar da prateleira o livrão do John Matthews, e mesmo com o cansaço complicando minha leitura acabei descobrindo sobre o que falar hoje: Quem inspirou Geoffrey?

Antes de continuar, não é um espanto ter linkado 5 vezes meu próprio blog? Será que os assuntos estão esgotando? Bom, no seu livro o John conta que com a partida do último galeão romano da ilha da Bretanha no século V, o país ficou meio que às moscas. O império romano estava recuando, perdendo terreno e procurando segurança na sua capital; os territórios conquistados na Espanha e na Armenia ganhavam novos donos, novos conquistadores.

Restaram até nossos dias pouquíssimos textos da época que contem pra gente como foi aquele período; mas do que sobrou, podemos observar alguns fatores que mais tarde seriam decisivos. Os romanos criaram novas estradas, interligando cidades; eles levaram ao pé da letra que o caminho mais curto entre dois pontos é uma linha reta, e fizeram estradas perfeitamente retas. As vezes me vejo pensando nisso enquanto estou preso no tránsito, e lembrando da minha Buenos Aires plana e de ruas perfeitamente paralelas. Os romanos tinham razão!

Junto com as estradas, os romanos trouxeram um sistema de governo pseudo-autónomo, uma escala hierárquica onde as cidades podiam se reger por conta própria, e contavam com recursos externos para crescer conforme demanda. Nisso as estradas aportaram as rotas de comércio, fundamentais para o crescimento destas cidades com o abastecimento e a exportação da produção local.

Com o tempo, os bretões começaram a ficar mais romanizados, ou como o John disse, "mais romanos que a própria Roma". A implantação do governo autónomo funcionou, e as regras de comum acordo entre cidades fizeram a economia prosperar.

Logicamente, com a partida do imperio romano, o que estava ruim ficou pior. É fácil imaginar um disse-me-disse de anos até de fato os romanos se retirarem; quantas pessoas de confiança não disseram para seus amigos mais próximos alguma confissão sigilosa sobre o futuro do país. Mas o fato é que muitos romanos acabaram fazendo sua vida por lá, casando com nativos da ilha e formando novas famílias, ou mesmo usufruindo as terras que conquistaram como pagamento dos serviços prestados ao exército romano, buscando o sossego de produzir na sua terra. Muitas pessoas decidiram não trocar as ondulações verdes e os profundos bosques da ilha bretã pela barulhenta e fedida Roma.

Entre os terratenentes que ficaram, existiam vários reis de tribos, interessados em ganhar status e poder com a partida dos romanos. Todos, sem distinção, cobiçavam a idéia de serem nomeados o "High King", com so outros reis ao serviço deles. Assim começou a Dark Age na Bretanha. De todos estes reis, teve um que finalmente obteve sucesso nesta empreitada; seu nome era Vortigern.

Este Vortigern, por incrível que pareça, nada tem a ver com o Vortigern da lenda arturiana, aquele da torre dos dragões. O que sabemos dele vem (finalmente!!) dos textos que sobraram da época; autores dos que comentei brevemente em um post ou outro.

Existem três fontes de onde tirar informação, nenhuma delas particularmente confiável, e eventualmente até contraditórias em certos aspectos. A primeira fonte, a mais extensa, e provavelmente a mais confiável seja a do monge Gildas, cujos escritos falam de fatos ocorridos no máximo 50 anos antes do texto. Seu trabalho é conhecido pelo nome de "De Excidio et Conquestu Britanniae" (queda e conquista da Bretanha), e pode ser definida como um protesto contra o tiranismo. Gildas coloca a culpa em Vortigern para tudo, chamando-o de "promotor dos costumes pagãos" em uma terra que recentemente tinha entrado para o Cristianismo. Olha só:

Assim todos os conselheiros, junto com o orgulhoso tirano Gurthigern (Vortigern), o Rei Bretão, estavam tão cegos que para proteger seu país acabaram selando seu fim convidando para o lado deles (como lobos no meio de ovelhas) os violentos e impíos saxões, uma raça odiada por Deus e pelos homens, para repelir os invasores do norte (pictos, escoceses..).

Tirando o exagero literário do Gildas, fica claro que o país estava indefeso, pronto para o festim de qualquer conquistador. A segunda fonte é o monge Nennius e seu Historia Brittonum, o texto dele mais tardío (séc. VII) e um pouco diferente do texto do Gildas, embora relate os mesmos fatos. Nas palavras do Nennius, é um apanhado do que conseguiu achar, misturando textos vários às tradições que sobreviveram ao tempo.

Por anos os Bretões viveram com medo. Vortigern era rei, e durante seu reinado foi ameaçado por pictos e escoceses. Nesse tempo, três navios vindos da Germania trouxeram grandes homens, entre eles os irmãos Hengist e Horsa, filhos de Guietgils, filho de Guitta, filho de Wodin...(...) filho de Geta, o que os faz filhos de Deus, não o nosso Deus dos Deuses, Amém, mas do Deus dos exércitos, que eles idolatram. Vortigern os recebeu de braços abertos, e lhes entregou a ilha que eles chamaram de Thanet, que os Bretões chamam Rudhim...

De novo, é o Vortigern o grande vilão quem recebeu os saxões todo feliz e contente, embora o contexto diz que eram homens vindos de navio. Provavelmente, exilados do próprio país por crimes ou coisa parecida, mas isso nunca saberemos ao certo, acho. Era comum entre os saxões se mostrar descendentes de deuses (neste caso Wodin), o que seria um símbolo de status e reconhecimento, e fama claro.

A última referência da época vem do "The History of the English Church and People" do Venerable Bede. Muito bem, pausa aqui. Como assim, Venerable?

Conforme ao diccionário Longman de cultura inglesa, Venerable é o equivalente a Archdeacon. Eu já ouvi falar de Archbishop (arcebispo) mas nunca de Archdeacon (arcediácono). Até onde sei, diácono é o cargo de um oficial da igreja imediatamente abaixo de Padre, portanto, o que sería um Arcediácono? Quem souber favor responda nos comentários; eu vou chamar de Venerable, como na Inglaterra mesmo.

O Venerable Bede é considerado um dos mais precisos relatores do Dark-Age, e tem tudo para ser contemporâneo ao Gildas e ao Nennius. Seu livro, escrito em 731 dC, conta o seguinte:

No ano 449 do nosso Senhor, os Anglos e os Saxões vieram a Bretanha por convite do rei Vortigern em três grandes navíos, e ganharam terras no leste da ilha com a condição de proteger o país; mas sua verdadeira intenção era atacá-lo.

Os três textos concordam em certos trechos. Os guerreiros germânicos chegaram em três navios, Vortigern lhes pagou por proteção. Não era a primeira vez que os bretões negociaram com invasores, dando terras para que de certa forma sossegassem e sirvam de primeira fronteira. A única certeza é que de fato Vortigern ou seus assessores calcularam errado onde estavam se metendo.

Gildas, Nennius e Bede são o que nos restou de base sobre o Arthur histórico, a provável origem real do Arthur de ficção. E com essa colaboração imprevista, estes homens não somente contaram a história, também a fizeram.

Até a semana que vem!

Sunday, October 26, 2008

Spoilers


Em geral não gosto de spoilers, mas vou dar alguns desta vez. Me surpreendi muito enquanto assistia o episódio 5 do novo seriado "Merlin". Já falei um pouquinho do seriado, especialmente pelo fato de distorcer totalmente a lenda arturiana; mas para meu espanto, este episódio puxou uma das referências mais curiosas que já vi fazer. Pela primeira vez, um seriado mais fantasioso que a própria fantasia fez uma referência histórica digna da BBC, digna da produtora do seriado.

Neste episódio, conhecemos Lancelot como um jovem que quer ser cavaleiro, mas não tem título de nobreza e portanto não é digno de fazer parte da corte de cavaleiros de Camelot. Por ajuda do Merlin, consegue um falso título de nobreza, e passa por vários testes até conseguir ser nomeado cavaleiro. Neste título, ele é anunciado como quinto filho do rei Uriens, mas Uther lembra claramente que Uriens somente tem quatro filhos, e pede para o escrivão da corte conferir a heráldica, a veracidade do título nobre do novo cavaleiro.

Até aqui, nada demais. O meu espanto foi o nome do escrivão: Geoffrey de Monmouth.

A piada é que uma das maiores referências para a lenda arturiana medieval tem por autor ninguém outro que o Geoffrey. Já falei dele algumas vezes, mas pelo que percebi nunca falei como um post dedicado o que facilitaria simplesmente linkar aqui e pronto. Mas resumindo muito o lance dele, por volta de 1136 escreveu um livro chamado Historia Regum Britanniae, ou Historia dos Reis da Britania, livro que foi considerado como dado histórico autêntico por muitos anos, contando um periodo que se estende de 1100 AC até pouco antes do 700 DC. Quer dizer, os galeses de fato acreditaram durante muito tempo que Uther, Arthur, e até o Merlin faziam parte da história do seu país, que tinham de fato governado aquela terra.

Foi muito engraçada a sutileza da piada feita no seriado ao colocar uma pessoa real no meio desse contexto altamente fantasioso; ter colocado um escrivão que existiu como a pessoa que cuidava dos livros, das patentes e títulos do reino. Parabéns à BBC pela idéia!

Teve mais uma piada bem sacada, acho que pela primeira vez mencionando uma referência correta à lenda, que é o triângulo Arthur / Guinevere / Lancelot. Com a vinda do Lancelot para o reino (interpretado pelo ex pintor maconheiro e morto do Heroes), rolou um clima clássico entre Lancelot e Guinevere. Pouco depois, na celebração para os novos cavaleiros, Arthur e Lancelot compartilham o mesmo banco, sentados juntos e bebendo; Guinevere os olha de longe, e Merlin lança uma pergunta:

- Gui, se você tivesse que escolher um deles, com quem você ficaria? - Ai Merlin, isso nunca vai acontecer, imagina...

Muito. Bem. Sacado. Sem perder o ar sacrílego do seriado, conseguiram fazer uma ótima referência para satisfazer a horda de arturianos fanáticos que pretendiam incendiar os estudios da BBC. Mais um pontinho para eles.

Fuçando o blog, percebi que teve dois assuntos que de fato não explorei, ou pelo menos não contei direito; um deles é o próprio Lancelot (com quem encerraria o triângulo), e o outro um post somente sobre os textos do Geoffrey, talvez falando no começo do Nennius. Vou pensar no assunto.

Até a semana que vem!

Friday, October 17, 2008

Camelot 3000 - Arthur no futuro!

Aconteceu, por acaso, que buscando uma e outra coisa na internet dei de cara com um gibi. Por curioso que pareça, no meu post anterior contei que o Prince Valiant tem toda a cara de ter nascido de um gibi, mas neste caso os quadrinhos não são sobre ele.


Uma série de 12 episódios escrita em entre 1982 e1985 veio contar uma história diferente. Olha só:

No ano 3000, a Terra é invadida por alienígenas, e os líderes do mundo se esforçam para enfrentar esta crise. Como a lenda conta, o Rei Arthur não morreu, mas descansa e aguarda para retornar quando sua amada Britania precisar dele... E teria um momento mais idôneo para ele retornar? Por um acaso, um zé mané tromba com um túmulo em uma escavação em Stonehenge, e dela surge Arthur para salvar a pátria. Com ele, outros personagens aparecem aos poucos (como Merlin por exemplo), mas a grande sacada é que os cavaleiros e outros personagens importantes da trama simplesmente se incorporam no corpo de pessoas vivas.

O gibi tem lados bons e lados ruins. Vamos ao ruim primeiro:

Os textos estão muiiiito ultrapassados, datados eu diria. Lendo algumas frases e olhando desenhos vemos que os ETs tem cara de insetos, andam como gente, usam armas "laser"... digamos, todo bem óbvio. O tom de discussão política envolve o confronto entre as potências da USA vs. URSS, e outras coisas bem gritantes dizendo "eu fui escrito nos começos dos 80". Ainda bem que tudo isso pode ser relevado, e até pode ser divertido como uma viagem no tempo.

Quase Cult

O lado bom é que este gibi abriu caminho trazendo um discurso adulto, e uma nova leitura à lenda arturiana; tudo bem que não é uma série que se destaque pela inventiva e criatividade, mas deu novo sentido aos personagens colocando-os em um cenário totalmente inusitado.O triângulo entre Arthur, Guinevere e Lancelot é recontado, assim como a busca do Graal e outros tantos eventos que fazem parte da lenda original.
Sobre o gibi, o roteiro é de by Mike W. Barr, desenhista Brian Bolland , e coloristas Bruce Patterson (1-6), Dick Giordano (6), e Terry Austin (7-12), publicado pela DC Comics. Como disse no começo, foi publicado entre 82 e 85, publicado novamente em 1998 encadernada em uma única edição, e agora reestréia em uma edição de coleccionador em capa dura, que está em pré-venda e tem data marcada para o 2 de Dezembro de 2008. Papai Noel, pensa nisso...

Deixo com vocês a primeira edição escaneada (de onde tirei a capa que ilustra o post), se divirtam lendo comigo o renascer do Arthur... Para ler, basta clicar em cada imagem. Detalhe: podem baixar as imagems ampliadas com click-direito e escolhendo "salvar link", ou com click-direito na imagem ampliada e usando "salvar imagem". Boa leitura!

Pág.01-05


Pág.06-10


Pág.11-15


Pág.16-20


Pág.21-25


Mais nos próximos gibis! Até a semana que vem!

Saturday, October 11, 2008

O Príncipe Valente

Prince Valiant, ou O Príncipe Valente, é um dos mais recentes acréscimos à lenda arturiana. Recente em termos; é recente considerando desde quando a lenda arturiana existe em si, mas para os nossos dias internéticos até que já tem seu tempinho.

O Sylar Medieval.

A idéia de escrever sobre o Prince Valiant veio por aparecer como vilão no segundo episódio do novo seriado "Merlin" da BBC, do qual falei apenas dois posts atrás. Encontrei mais gente revoltada com as reformas da história, com argumentos convincentes diria, mas teve uma preocupação em mencionar um fator que eu não tinha me mancado. As crianças que assistirem este seriado terão essa versão como a primeira, o que de certa forma é muito prejudicial. Concordo que afinal lenda é lenda, mas o risco de deseducar é alto. Ainda bem que tem blogs como o meu, heehee! A mensagem para os pais é: Coloquem as crianças para ler, seja em livros, seja no computador. A questão não é o meio, é o conteúdo.

New Kid On The Block

Primeira parada: Sir Thomas Malory. Procurei no livro de ponta a ponta, no índice, no glossário, e até na versão digital (onde procurar é muiiiito mais fácil). Nada de Prince Valiant. Aí eu me disse "Êpa, aqui tem coisa rara...". Marion tá de testemunha que falei isso mesmo. Bom, o fato é que eu lembro do nome, de ter ouvido "Prince Valiant" e "Arthur" na mesma conversa, na mesma linha, mas o fato de não localizar nada sobre ele no Le Morte d'Arthur de 1485 quer dizer que não vai ter referências dele nem nos livros do Chrétien, nem no Historia Britannae de Nennius, nem em nada anterior ao período medieval. Talvez, e somente talvez, tenha alguma referência nos contos do T.H.White, que são bem mais recentes, ou mesmo nos textos do Christian de Montella, contemporâneo nosso, mas não pesquisei nesse material até porque não vivo de blogar. Quem sabe este post não ganhe um update mais na frente.

Para não dizer que não encontrei nada no Malory, tem a menção do Sir Villiards O Valente, nomeado cavaleiro pelo Sir Lancelot, e mais tarde nomeado conde de Bearn também pelo Lancelot; acontece que no Malory, Lancelot fica dono de boa parte da França e da Itália, e na que sería sua última viagem ao território francês ele não somente divide as terras como coloca condes e duques para governar cada uma, homens da sua confiança. Isto ocorre no cap. 18 do segundo livro, bem perto do fim.

Então, se não há referências ao tal Príncipe Valente, de onde ele veio?

Heroi dos Quadrinhos

A referência mais antiga que achei foi um gibi. É. "Prince Valiant in The Days of King Arthur" é um gibi de 1937-1938 escrito por Harold P. Foster, que hoje podemos localizar em diferentes impressões como coletâneas por volumes. Foi produzido um livro de capa dura para cada ano da tirinha, usando cópias da edição colorida publicada no Sunday. Entre os itens de colecionador mais raros que encontrei na internet, tem um disco em vinil com as histórias gravadas em formato de conto. Isso é que é um podcast do passado.

Hal Foster (como assina nos gibis) escrevia a tirinha do Tarzan quando foi requisitado para uma nova tirinha para uma série de jornais. Inspirado nos ideais da cavalaria e dos tempos medievais, távola redonda e etcéteras, ele criou o tira "Derek, Son of Thane". A tirinha estava ótima, a idéia era excelente, mas o nome era uma caca. Então simplificaram para "Prince Valiant", e foi um sucesso estrondoso.

A história no gibi se destacou por vários fatores:
  • A proposta de mostrar os tempos medievais foi muito fiel nas suas referências.
  • Os heróis não eram perfeitos, tinham seus erros, eram humanos como qualquer um.
  • Os vilões tinham também sua pontinha de nobreza eventual.
  • Os personagens envelheceram naturalmente com os anos.
  • A humanização deu lugar a uma mistura única de dramas familiares e fantasia.
A história ocorria principalmente em Camelot da Britania, mas os contos levaram os personagens para os lugares mais insólitos, como a misteriosa China e até o deserto do Sahara.

Herói Revisitado

O Prince Valiant serviu de inspiração a outras artes também, não morreu nos quadrinhos. A Fox produziu um filme em 1954, que conforme o IMDB "conta a história de um jovem príncipe Viking ansioso por formar parte da corte de cavaleiros do Rei Arthur, e assim ajudar seu exilado pai a retomar o trono das suas terras". Curiosamente, o conto do Chrétien "Cliges, ou a que se fingiu de morta", escrito no século 12, conta uma história similar sobre um tal de Alexandre, Príncipe da Constantinopla, que viaja de remotas terras para se formar cavaleiro na corte do Arthur. Curioso. Quem sabe não achei minha referência ao tal "príncipe valente".

Mais recente ainda, houve um desenho animado produzido em 1991 pela Hearst Entertainment, a mesma do Popeye, e com uma cara total de Caverna do Dragão. Olha só:




Finalmente, mais um filme, desta vez produzido na Alemanha em 1997 com o mesmo nome. Pouca info sobre o filme, e pelo pouco que vi tem toda a cara de ser de baixo orçamento. Se achar até assisto, já sabem como eu sou.
A capa de fato não diz muito, e a pontuação de 4.8 no IMDB também não ajuda. Mas, considerando tudo o que já assisti, acho difícil me surpreender com alguma coisa...

Até a semana que vem!

Saturday, October 4, 2008

Pedra Sobre Pedra

Este post foi sugerido indiretamente pela minha Marion baseado em uma reportagem que ela encontrou por acaso na internet.
Fiz uma busca no meu próprio blog sobre Stonehenge, e para meu espanto, ainda não fiz um post dedicado somente a ele, mesmo dedicando alguns parágrafos perdidos em alguns posts que tinham relação com o famoso monumento de pedra, como o lance de ser o túmulo do Uther, o Merlin ter transportado as pedras, etc, etc...
Faz um certo tempo ouvi falar do trabalho de um grupo de arqueólogos interessados em aplicar as técnicas atuais para determinar a idade aproximada das pedras, das escavações e dos objetos encontrados por lá; a idéia é aplicar o famoso Carbono 14 dos filmes para determinar com certo grau de acerto quando exatamente essas pedras foram parar a 250 km do seu lugar original para formar um círculo calendário. Pois é. As tais pedras vieram do sul do País de Gales, e formam o que provavelmente seja o monumento pré-histórico mais famoso da humanidade.
Então, os cientistas extraíram várias amostras orgânicas do local, tiradas da única escavação permitida pelas autoridades; um buraco quadrado de 3,5 mts por 2,5 mts entre os dois círculos de pedra.

Cientistas descobrem que o Laser Disc é pré-histórico.

O resultado dos testes com radiocarbono deu valores entre 2400 e 2200 a.C., portanto os cientistas disseram que "tá na média de 2300 a.C.". Resposta brilhante a deles, imagino quanto tempo levaram para chegar na tal "média"...
OK, pra gente isso não diz nada, afinal passar do 2600 a.C para 2300 a.C. dá exatamente na mesma pra nós, mas para os cientistas diz muita coisa. O fato das pedras serem 300 anos mais "novas" revela um pouco mais sobre o período histórico na qual foram erguidas, sobre a tecnologia disponível e sobre os costumes da população em geral, o nível social, hierarquias, etc.
Uma das maiores teorias hoje é que Stonehenge tenha sido um centro de curas, já que nas proximidades das pedras foram encontrados muitos corpos com ferimentos graves, ou mesmo evidências de doenças fatais, e pelas pesquisas feitas nesses corpos foi possível determinar também que eles não eram da região; quer dizer, gente ferida e doente que viajou ou foi mesmo trazida até o lugar.
Entre estes corpos, um particularmente chama a atenção, que ganho o apelido de "Arqueiro de Armesbury" encontrado a quase 5 Km de Stonehenge e que curiosamente bate no radiocarbono a idade das pedras. O tal Arqueiro de Armesbury é famoso pelas riquezas encontradas no seu túmulo (momento Indiana Jones / Lara Croft agora), muitas delas peças de metal trabalhadas, e que evidenciavam que este homem viajou dos Alpes europeus até a remota Inglaterra para ver as pedras.
Nem todo mundo aceita a teoria do centro de curas; outros cientistas defendem que o tal Arqueiro só foi até Stonehenge para vender suas tralhas, considerando quanto as pedras deviam ser famosas e quantas pessoas ricas o suficiente para viajar poderiam estar lá. Digamos, um muambero pré-histórico.
Resumindo, a reportagem não diz muita coisa na verdade, mas ao mesmo tempo traz o assunto à tona novamente; para quem quiser saber meeeeesmo sobre Stonehenge, recomendo o site oficial "www.stonehenge.com.uk", ou mesmo para quem tiver a sorte de "encontrar" por aí, tem um ótimo documentário da BBC que conta inúmeros detalhes sobre os círculos de pedra, especialmente o que deu assunto a este post.

Até a semana que vem!