Monday, April 11, 2011

Nas Terras do Rei Arthur - Parte 1

Finalmente e de forma completamente inesperada, o destino brincou ao meu favor e me vi com uma passagem para Inglaterra nas mãos. Me lembrei do Uthred, personagem principal das Crônicas Saxônicas de Bernard Corwell, contando como as fiandeiras do destino (as Norns) teciam as raizes de Yggdrasil, a árvore da Vida da mitologia nórdica. Segundo a mitologia nórdica, são elas que entrelaçam e desfazem os nós nas raizes de Yggdrasil, e assim a vida vai tomando rumos que nunca podemos prever, mas que estão escritos. 

Como várias outras vezes, surgiu a possibilidade de uma viagem para Alemanha, que foi se atrasando e atrasando por falta de hotéis e passagens. Tudo para um workshop, um encontro de trabalho com outras pessoas de vários paises. O fato é que por questões de agenda, acabaram marcando esse encontro a partir do 5 de Abril, com data para acabar no dia 8. Eu respirei aliviado, porque estava com receio de perder o show de U2, marcado para o dia 9 e com ingresso na mão fazia meses. O que não calculei e foi completamente inesperado foi a mudança do destino para Inglaterra, já que ficava mais fácil conseguir hotel e reservar para o evento. 

Quando soube, comecei a me apavorar. Será que eu ia viajar, ou colocariam outra pessoa? Será que aprovariam a viagem? O fato é que até quatro dias antes da viagem, eu não tinha a confirmação da minha ida, nem passagem, nem nada. Foi tudo às pressas. Detalhe: teria a segunda-feira livre, já que chegava em Londres na segunda-feira bem cedo, e o evento era só na terça, em outra cidade a uma hora de viagem. Assim, sabendo desse dia livre, comecei a bolar o plano mais ambicioso que se pode montar em apenas um dia. 
Então, a primeira pergunta que me fiz. Onde vou? O que posso fazer em um dia?

Sem conhecimento algum da geografia da Inglaterra, comecei a estudar o mapa, buscando lugares que lembrava da lenda arturiana, e ver quais as chances que teria de visitar os lugares. Isso envolve a logistica do transporte, a grana necessária, o tempo que pode levar para ir e voltar e ainda ver se o local estaria aberto. Então, a primeira coisa que fiz foi olhar na internet alguns mapas políticos da Inglaterra. E vi que é uma verdadeira bagunça.

Inglaterra é dividida mais ou menos em 80 condados. É isso mesmo, OITENTA. Imaginem decorar os estados do Brasil, ou as províncias da Argentina, só que no lugar das 20 e poucas são 80. Detalhe: comecei a dar zoom no mapa, e vi os nomes. Tinha um monte de Sei-Lá-O-Quê-Shire. Hamptonshire, Birminghamshire, shire, shire, shire. Vou me perder como um otário, pensei. Aí afastei o mapa, e procurei primeiro Londres (no meio do reino, um pouco para abaixo), e procurei Milton Keynes, a cidade onde ia passar os dias do workshop. Milton Keynes fica bem no meio, em uma divisão do mapa que se chama oportunamente de Midlands (terras do meio, ehem..). Ao pesquisar sobre Milton Keynes, descobri que era uma cidade bem nova, fundada em 1971 e inspirada na americaníssima Los Angeles. Ou seja, nada nem remotamente histórico na cidade, nem realmente inglês (salvo a mão das ruas, que é bem perturbador para quem está habituado com vías na mão direita).  

Assim, comecei a pensar... Deixa ver... Onde posso ir? Ou melhor, onde gostaria de ir? O que quero visitar? O que é genuinamente arturiano?

A primeira cidade que me veio à mente foi Glastonbury. Glastobury é fundamental na lenda por ser o lugar de descanso final de Arthur; embora a lenda diga que foi em Avalon, há razões para pensar que Avalon na verdade seja uma região de terra que eventualmente fica ilhada por causa da maré, enquanto em outros momentos fica rodeada por terra por todos os lados. É uma ótima maneira de disfarçar uma ilha... O lance é que Glastonbury e sua catedral (hoje em ruinas) é o lugar onde foi achado um painel falando que era o túmulo de Arthur e Guinevere, e alguns metros abaixo desse painel foram achados dois corpos enterrados, de um homem e uma mulher. Estes corpos sumiram em determinado momento, mas até hoje tem visitantes que levam flores às ruinas, onde resta uma pequena placa com o nome do lendário rei. Só tinha um problema: Glastonbury é longe demais de Londres, e fica completamente fora de mão. 

Mudando de idéia, lembrei de Tintagel. Já que não poderia ver onde terminou a vida de Arthur, por quê não ver onde nasceu? Tintagel era o castelo a beira-mar do Gorlois, marido da Elaine que posteriormente viria a se tornar mãe de Arthur, filho de Uther Pendragon. Gorlois foi morto por Uther, e através de um feitiço do Merlin Uther tomou a aparência de Gorlois, e entrou não somente no castelo de Tintagel, como acabou entrando na cama de Gorlois e engravidou a Elaine. Tudo isto não foi apenas obra do acaso, mas um elaborado plano do Merlin. Essa criança não cresceria ao lado dos pais, mas seria levado para longe, onde seria descoberto como verdadeiro e único rei quando fosse o momento certo. Esse momento foi revelado com a clássica cena da Espada na Pedra. Então, Tintagel parece uma ótima opção, salvo por um detalhe: é ainda mais longe do que Glastonbury, afinal, é beira-mar, né?
Enquanto ia desanimando e perdendo as esperanças, senti um calafrio intenso, e uma faísca de memória estalou na cabeça. Inglaterra. Estou indo para Inglaterra. Terra antiga, envolta em brumas e mistérios. Fervilhando de lendas e lugares épicos. E entre eles, um dos maiores mistérios, não resolvido até hoje, e que provavelmente fique sem resposta até o fim dos dias. Stonehenge.

Comecei a pesquisar. Horários, cidades, transportes. E descobri, já radiante de alegria, que Stonehenge fica em Salisbury, apenas a duas horas de trem de Londres. Vitória. Finalmente tinha um destino.

Como um turbilhão, outra memória veio à cabeça, e comecei a pesquisar no blog. Encontrei o que buscava e, para meu fascínio, ficava na cidade de Winchester. Onde fica Winchester? Exatamente a metade de caminho entre Londres e Salisbury. E eu tinha um plano nas mãos.

Busquei mais informações, pesquisei trens, horários, combinações, e tudo foi se encaixando. Fui meu melhor agente de viagens. Tudo funcionou à perfeição, tudo conforme ou até melhor do que esperado. Tudo o que me propus a fazer, fiz. E um pequeno diário de viagem registrou cada momento, junto com a câmera de fotos, que não saiu do meu bolso nessa longa e intensa segunda-feira.

Esse caderninho me acompanhou em cada trem, em cada parada, e tem nele cada palavra. É o primeiro registro de cada emoção, de cada experiência vivida nessa viagem.

Mas, o que tinha em Winchester? Conto no próximo post.

Monday, April 4, 2011

Turismo

Adivinhem onde estou?

Como disse, voltei. Me aguardem, tenho MUITO para contar.

Sunday, March 27, 2011

Faz tempo!

Faz tempo que não deixo nada por aqui. Para falar a verdade, nem o post do meu aniversário conta como post, até porque não falei do Romualdo, meu dragão florido. É mais ou menos como o Ferdinando, o touro que gostava de flores, só que é um dragão. Isso vou contar com mais detalhes em outro momento.

Tenho novidades, mas não vou queimar a notícia. Estejam atentos ao PRÓXIMO post. Estejam aware, como me disseram nesta semana durante uma reunião.

Eu v0ltarEi...

Sunday, March 13, 2011

Níver Arturiano

Hoje é meu aniversário, e logo o primeiro presente que recebi já era arturiano. Ou quase.

Inspirada nos cavaleiros da távola redonda, a Meg Cabot escreveu o livro "Avalon High"; ainda não li, mas posso adiantar que é uma história mais focada no público jovem e feminino, mas nem por isso vou deixar de ler. A linha principal é sobre uma garota que troca de escola, e vai parar na Avalon High. Lá ela conhece um rapaz, e fica com a sensação de conhecê-lo há muito mais tempo; o mesmo acontece com o rapaz. Aos poucos, a história deles se mistura com a lenda de Camelot...

Vou ler, e depois comento com propriedade.

Alguém aí já leu? Comentem!

Até o próximo post!

Sunday, March 6, 2011

Camelotz

Estava no sofá, e do nada me veio uma visão. Eu vi Thomas Malory aos empurrões no céu. Gritava:

- Me soltem! Me soltem! Vou puxar esses hereges até aqui para se explicar na minha frente!

Dois homens o seguravam pelos braços, enquanto esbravejava. Esses homens eram Chrétien de Troyes e Geoffrey de Monmouth. Falavam para ele, como quem explica para uma criança:

-Deixa pra lá, é assim mesmo... Uma hora você acostuma com isso. Olha pra gente... Na época nos também pensamos em te matar.

Provavelmente foi mais ou menos isso o que aconteceu na estreia do seriado "Camelot", cujo primeiro episodio foi ao ar lá fora pelo canal americano Starz.
 

A idéia era fazer um seriado baseado no texto do Le Mort d'Arthur, do Thomas Malory. Só que cabe mais a expressão inspirado do que baseado, salvo que baseado seja o item consumido durante a leitura do Malory para criar o script. Eu já estou um tanto escaldado com isso, depois de ter visto várias temporadas do Merlin da BBC deturpando a lenda, mas desta vez tenho que reconhecer que foram bem criativos.

Vamos começar citando alguns nomes, que ajudam a explicar o que podemos esperar do Camelot:
Entre os roteiristas, encontramos a Michael Hirst. Devemos a ele os filmes "Elizabeth" de 1998, e "Elizabeth: The Golden Age" de 2007, o que cria uma expectativa de grandiosidade no seriado, e especialmente um senso de exatidão histórica misturada a uma história belamente contada. Só tem um detalhe: ele também é roteirista do The Tudors, famoso pela riqueza do figurino, e pela ausência do figurino nas geralmente injustificadas cenas de sexo. 

Vou citar mais um nome, o Graham King. É um famoso produtor, reconhecido com um Oscar pelo seu trabalho no Os Infiltrados. Entre seus trabalhos mais famosos, quero citar O Aviador e Gangues de Nova Iorque; casualmente, os três filmes que citei dele tem o DiCaprio. Vou acrescentar à lista o filme The Young Victoria, para citar um filme de época.

O que pode sair ao juntar este pessoal? Fácil: a dinâmica do Aviador, a viagem histórica do Gangues de Nova Iorque e a suruba constante do The Tudors. Mais o menos isso. Entre as festinhas, vemos o Arthur pegando a namorada do Kay, e a Morgana traçando quem precisar para conseguir favores. 

O fato é que entre figurinos ricos e genitalia rebolante, assisti o primeiro episódio de "Camelot", minisérie que terá dez episódios.

Cabe lembrar que o argumento do seriado era contar o que ocorreu entre a revelação do jovem Arthur até a formação da corte de cavaleiros. Ou seja, teremos a oportunidade de conhecer os cavaleiros ao mesmo tempo que o Arthur, o que apela ao já super manjado recurso de "coloque um personagem desavisado para fazer as perguntas pelo público". Sempre dá-se um jeito de explicar o que está acontecendo.

O episódio começa com o Rei Uther dando uma festa, onde é chamado para avisar que recebeu uma visita. Esta visitante era Morgana, quem voltou do convento onde esteve "exilada". Depois de tomar um tapa do Uther, ela dá um jeito de envenenar o pai. Nessa cena, aparece um Merlin desaforado, meio Mad Max, que no lugar de salvar o Uther consegue descolar uma assinatura dele, reconhecendo "o menino" como filho legítimo. De posse desta carta, Merlin vai até o interior do país, onde recolhe o Arthur, que sem saber que era filho do Uther, morava desde que tinha apenas uns dias de vida sob os cuidados de Sir Ector, e tratado como irmão mais novo de Kay. 

Vou parar por aqui, apenas para comentar uma das mudanças mais graves ao texto do Malory. No lugar de uma clássica cena de espada na pedra, Arthur fica sabendo pelo Merlin que é filho do Uther dentro da barraca onde mora, na frente dos pais adotivos e do Kay. Foi nessa hora que o Malory deve ter surtado, seja lá onde ele estiver neste momento. Foi jogada fora uma cena tão épica como a da espada na pedra, onde o destino da Britania está por um fio, sem ninguém como rei e todos os inimigos do reino à espreita. 

A partir daí, seguem outras viagens no roteiro, muito mais elaboradas, como uma viagem do Merlin, o Arthur e o Kay para um castelo em ruinas, onde encontram os cavaleiros que eram fiéis ao Uther e juram seguir ao Arthur. Supostamente, este castelo vai virar Camelot em algum momento, só que fica à beira mar. Nisso tem uma confusão geográfica considerável; Tintagel fica de frente ao mar em um acantilado, enquanto não se sabe onde era Camelot, mas nunca foi citada como uma cidade costeira. 

Ainda vou tirar um tempo para falar dos atores, mas vou deixar isso para daqui a alguns episódios. Está cedo para saber no que vai dar.

Como encerrar este post? Apenas com um comentário: Vejam, assistam, e opinem! Veremos como a história continua nos próximos episódios.


Até o próximo post!

Sunday, February 27, 2011

Café Curto

Eu sei, faz tempo que não escrevo. Acho que meu problema é gostar de coisas demais, e com isso meus hobbies interferem uns nos outros. Tenho que me policiar para o blog não perder a constância, mesmo que com posts curtos (que não são muito meu estilo..).

Trago novidades. Não vi ainda, mas finalmente lançou o piloto do novo seriado Camelot. Faz quase 8 meses que fiz a menção deste seriado, aqui no blog mesmo. Finalmente aconteceu, e conforme previsto o piloto saiu na primeira metade de 2011. Por enquanto é só o piloto, que estou descolando ainda, mas o seriado começa para valer em Abril. E já estou ansioso para ver.

Assim que assistir venho contar para vocês o que achei da série. Por isso este post vai ficar com sabor de café curto; serve para acordar, mas para sentir o gosto mesmo precisa de outro.

Até breve!

Thursday, February 10, 2011

O último post do Camelot 3000

Será? Será que vai ser mesmo meu último post sobre esta saga? Digo último, porque falei pelo menos 3 vezes sobre este HQ. Pois é. Até o post em vídeo, o Camelot TV, foi sobre estes quadrinhos.

Receio que seja o último por uma causa bem simples: terminei de ler. Acho que fui deixando o livro de lado não apenas por ter outras coisas para fazer também, mas por saber que era curto e quando fosse encarar o livro ia terminar logo. Foi o que aconteceu; peguei, deixei no criado mudo, e fui passando alguns capítulos todas as noites até acabar. Vamos ao resumo, ou colocando melhor, minha opinião pessoal sobre o gibi:

A história é muito fumada. Bom, na verdade está dentro do esperado para um gibi; quem lê histórias em quadrinhos sabe que a criatividade nunca foi problema para os roteiristas. Todos os super heróis são resultado da imaginação, do desprendimento da realidade e dos limites que ela impõe. Assim, o Camelot 3000 usa este recurso ao extremo, com relativo grau de sucesso a cada tentativa. 

Como já disse nos posts anteriores, o mundo pode sucumbir, vítima de uma invasão alienígena. Os ETs lembram reptéis, talvez dinossauros bípedes, e chegam destruindo tudo, sem chance de negociação ou conversa. Qualquer esforço da humanidade parece não ter resultado algum. Nisso, me lembrou o filme "A Reconquista", onde o John Travolta interpretava um ET e em um dos dialogos com a resistência humana diz "Sabe quanto demoramos para destruir todas as defensas do seu planeta e invadir todas as cidades? Oito minutos". No livro não levou oito minutos, portanto o John Travolta é mais eficiente que os ETs do livro, mas não vem ao caso.

Um jovem se esconde nas ruinas de Glastonbury, e enquanto é perseguido pelos ETs esbarra no túmulo do Rei Arthur. É uma descoberta casual, importantíssima no sentido histórico, e o protagonista lamenta ter feito semelhante descoberta em uma hora tão infeliz para a humanidade, perto do seu fim. Assim, Arthur acorda do seu longo sono, enfrenta e derrota os aliens que seguem este jovem, e pede para ele que seja seu escudeiro até reunir novamente sua corte. Partem para Stonehenge, onde libertam Merlim da sua prisão de feitiços, recuperam Excalibur e chamam aos espíritos reincarnados dos principais cavaleiros. 

Na medida que avançamos na história, vemos várias coisas muito inovadoras no gibi, e outras que denunciam cruelmente sua data de nascimento. Temos um texto dinâmico, mas que ao mesmo tempo se preocupa muito em fazer jus à lenda original. Há uma preocupação visível, muito nítida de representar dignamente todo o lendário arturiano; não apenas pegar carona na fama dos personagens, mas mostrá-los dentro das suas facetas próprias, de trazer suas características principais e construir estes personagens novamente. Há um cuidado especial na fidelidade ao caráter dos personagens. Isso é uma conquista e tanto, e com certeza serviu de referência para outros HQs "históricos" que vieram posteriormente. É delicioso ver quanto cuidado foi colocado nesta história, para torná-la não apenas um gibi que as pessoas iriam ler no metrô no caminho ao trabalho ou à escola, mas iam guardar e colecionar como volumes de um livro. Uma história com começo, meio e fim, da qual não haveria outra nem sequências. É um livro, um conto, no formato de gibi.

Outra conquista deste gibi que não posso deixar de lado é tocar em assuntos considerados tabu, com a seriedade necessária e a responsabilidade de passar uma mensagem. No gibi, o Tristão reencarna no corpo de uma mulher, e sofre muito com isto. Há uma dor constante, uma aflição de ser homem, preso no corpo de uma mulher. Todos o tratam (ou a tratam) como mulher, querendo protegê-la durante as batalhas ou mesmo dando tarefas menos arriscadas nas missões, e isso o frustra completamente. O grande Tristão, deixado de lado, como se sua capacidade fosse menor por ser mulher. A coisa fica ainda mais gritante quando Isolda é reencarnada, e tem seu encontro. Isolda não liga para o corpo de Tristão, enquanto ele se sente incapaz de dar a Isolda o que merece, incapaz de corresponder seu amor como homem (click na foto para ver maior). Ele chega a questionar à Isolda o que ela teria feito se reencarnasse como homem, ao que ela devolve a pergunta, "o que você, Tristão, faria se os dois fossemos homens?". É de uma coragem e audacia incríveis tocar em assuntos como homossexualidade e lesbianismo de forma tão direta em um gibi dos anos 80, considerando que até hoje, quase 30 anos depois ainda estes assuntos são tratados geralmente através do humor, para torná-los mais aceitáveis pelo grande público. As novelas e filmes colocam os homosexuais como pessoas engraçadas, ou em papéis engraçados, para facilitar a sua aceitação. Parecem deixar de lado a dificuldade em reconhecer, ou falando melhor, ignoram o confronto constante com familia e sociedade para mostrar que seus gostos e interesses não vão com o que a sociedade impõe. Homossexualidade não é uma preferência; se fosse, seria muito mais fácil seguir o que a sociedade quer, do que enfrentar tudo e todos para dizer que é diferente. Por isso, não posso deixar de elogiar o trabalho feito no Camelot 3000 ao introduzir na história um assunto tão sério de forma responsável, sem meias palavras. 

No prefácio do livro, os autores comentam sobre isto, e contam que foi realmente uma maneira de puxar os limites da época, de trazer um texto completamente inovador e dar ao gibi o tratamento que um livro receberia. Posso afirmar que nesse aspecto acertaram em cheio, e de fato é um texto memorável.

Críticas? É dificil, mas tem algumas pequenas coisas, meio inconstantes. O livro mostra um futuro bem fantasioso, a cara do futuro que imaginamos durante muito tempo, mas me parece uma visão ultrapassada demais até para os anos 80, especialmente nas cenas espaciais. As roupas espalhafatosas são nítida influência dos 80s, mas assim como a lenda foi levada a sério, os aspectos tecnológicos foram ignorados na sua maioria. Ninguém usa capacete no espaço, por exemplo. Parece que o oxigênio deixou de ser uma necessidade, ou mesmo uma atmosfera para proteger da radiação solar. Para se situar, nos anos 80 não existia internet, nem celular, nem muitas das coisas que hoje fazem nosso dia-a-dia; por isso, aceitamos na boa que na visão futurista do gibi os comunicadores sejam caixas quadradas com antena, e a maior parte das conversas à distância sejam em vídeo-telefone. Mas, se o gibi foi escrito e publicado entre 1983 e 1985, ele é posterior a todos os filmes do Star Wars, ou mesmo posterior ao fantástico seriado Cosmos de Carl Sagan de 1980. Acho que poderiam ter dado à vida no espaço o mesmo respeito que deram à lenda arturiana, e nisso ficou um tanto aquém. 

No resumo, vale a pena ler cada página, se encantar com a arte dos ilustradores e com uma das histórias mais piradas que já li no contexto do Arthur. Ok, tem os filmes cretinos baseados na novela do Mark Twain, "A Connecticut Yankee in King Arthur's Court". A diferença é que desta vez, o gibi é para ser levado a sério em vez do livro...

Boa leitura! Até o próximo post!