Saturday, April 16, 2011

Nas Terras do Rei Arthur - Parte 2

Este post é continuação de um post anterior, portanto, se você não viu o que está rolando, veja o post anterior neste link.

Voltando a assunto, meu vôo saiu pontualmente às 16:15 no 3 de Abril, domingão. O vôo estava tranqüilo, com bom espaço gente que conseguiu deitar ocupando 4 poltronas lá no final do avião. Logo de cara olhei a programação de bordo, e assisti na telinha do assento "The King's Speech", que é um filmão. Detalhe: assisti sem legendas. Inglês británico de meados do século 20, com vocabulário extraordinário e pomposo, expressado na voz de um tartamudo. Era isso que precisava para abrir a cabeça e me preparar para o que vinha. Eu peguei corredor (como em toda viagem atlântica), e na janela vinha um carinha que falava mole. Bem apessoado até, mas falando mole. Duas possibilidades: ou estava bêbado, ou tomou alguma coisa para apagar no avião por cagaço de voar. O fato é que ficou com a janela aberta, um sol fortíssimo por cima das nuvens na cara, e dormindo, apagadaço. Logicamente, acordou por volta das duas da manhã, pilhado de tanto dormir, e ligou o notebook. Era um iMac com a tela estúpidamente brilhante. Ficou no Word (ou coisa parecida) escrevendo um monte, iluminando o avião inteiro com esse negócio, enquanto as pessoas tentavam dormir, do jeito que dava. E eu com esse refletor me apontando.

Tempo depois, parei de ouvir o teclado, mas a luz continuava. Virei para ver o que estava rolando; achei que o sujeito tinha dormido com a máquina aberta, mas aí vi o que era. iTunes. É. Qualquer pessoa normal ia optar por ouvir o som da rário do avião, ou usar o celular o mesmo qualquer player de bolso para ouvir músicas. Mas não; meu coleguinha de banco precisava um iTunes de 15 polegadas ligado no meio da noite para ouvir suas músiquinhas. Cansei, levantei, e fui bater papo com os comissários de bordo.

Eles, super gentis, me deram um bocado de dicas sobre a cidade, e lugares que podia visitar perto de Milton Keynes. No fim não visitei nenhum deles, mas para não esquecer do Dave vou dizer que era comissário británico muito simpático, e que era a cara do Matt Parkman (gordinho do Heroes que lê mentes), ou mesmo do piloto de avião que morre pelo Lostzilla. Bom que era só comissário e não piloto, senão ia me preocupar seriamente com o rumo do meu vôo.

Cheguei em Heathrow no terminal 5, descemos na pista, e fazia 10 graus. Clima bom, gosto desse friozinho de manhã. O onibus nos levou até o terminal, e lá que tomei um susto. Passando junto com os outros passageiros, um policial me segura firme pelo ombro e me puxa pra fora da fila. "F...deu", pensei.

Perguntas básicas, e eu nervoso pela fama da Inglaterra devolver gente. Respondi tudo com o melhor inglês que podia (que não é ruim, mas ficando nervoso custa pra sair). No fundo, acho que ia ficar nervoso respondendo em qualquer idioma mesmo. Subitamente, vieram duas palavras para minha mente, que foram a chave de passagem: "Bussiness Trip". Com isso fui liberado imediatamente, com um "Thank You for your cooperation, and sorry for any inconvenience" (Obrigado e desculpa qualquer coisa, viu?). Claro, a partir desse momento e até sair do aeroporto, nem respirava mais. Devia estar pálido, provavelmente. Coloquei o fone de ouvido, espetei no celular, e nem liguei o som. Fiquei mexendo no aparelho para pegar sinal de celular. Guardei no bolso. Pensava, "esse cara com certeza me marcou. Vão me deixar passar para me pegar depois. Vou me ferrar.". A fila andou, e chegou minha vez na imigração. Dei o sorriso mais cara de pau que dei na minha vida para a moça, junto com meu passaporte e um "good morning". Me perguntou as mesmas coisas, respondi de novo, "bussiness trip". Me perguntou onde ia ficar, e falei que ia passar um dia em Londres, e depois ia para Milton Keynes, onde era o "meeting". Quantos dias vou ficar, etc, etc, mais um par de perguntas, folhou o passaporte. Falando nisso, meu passaporte é horrível por ser feito no consulado, tem toda a cara de ser falso, mas por sorte já tem carimbos da Alemanha e França, e isso dá um pouco de credibilidade.

Finalmente, achou um espaço em branco (que não é para os vistos nem carimbos, é o espaço para renovações), e meteu o carimbão. Eu olhei o passaporte, agradeci e sai para buscar minha mala. Ufa.

Peguei a mala, e faltava passar pelo último controle. Uma japinha com um cachorro grande, não lembro o nome da raça mas é um cão de caça, do porte e tamanho de um Golden Retriever, só que com orelhas compridas como as de um Cocker Spaniel. Sempre aparece nos filmes quando caçam patos, ou até no joguinho do Duck Hunt.

O cachorro me cheirou, cheirou minha mala, e passei. Estava indo e voltei dois passos, para perguntar o nome do cachorro. Rocko. Cumprimentei o Rocko, e deixei ele me cheirar de novo, agora na amizade.

O aeroporto é gigante, e por sorte (ou experiência?) me orientei muito rápido. Achei o locker, que na verdade é um storage de bagagem pago (foi 8 libras por um periodo de 24 horas), onde escaneiam a mala e perguntam algumas coisas sobre os eletrônicos ou qualquer outra coisa que acharem durante o scan. Larguei os dois notebooks na mala grande, e fiquei somente com a mochila quase vazia, um caderninho, caneta, documentos, grana, as cameras de foto e o agasalho. O lance era viajar o mais leve possível, nada de ficar carregando coisas que não precisa.

Peguei um ticket de metro para as áreas 1 até 6 (sistema bem parecido ao da Alemanha), e fui até a grande estação de trens de Waterloo. Até então, tinha visto quase nada de Londres, fora trilhos e gente vestida quase que de qualquer jeito. Por sinal, gostei disso. Acho bom esse lance de cada um na sua, todos convivendo pacíficamente. Falando nisso, tinha dois tipos de pessoas: as que lêem revistas ou jornais, e as que escutam mp3. Para me enturmar, fiquei com o fone de ouvido na orelha, mesmo que desligado. Tinha um mundo novo de coisas para ouvir e aprender à minha frente, e não ia jogar isso fora.

Eram as 9:50, sai do metrô e segui as escadas até Waterloo Station. Esta estação é responsável pelo atendimento do sul/suleste do país, exatamente o rumo que pretendia seguir.  Fiz um par de perguntas de turista perdido nas cabines, e comprei meu ticket para Winchester.

O trem saiu exatamente às 10:05, e foi só então que comecei de fato a vislumbrar o país onde estava. E sorri. Estava na Inglaterra.

Daqui a pouco escrevo mais. Estou a caminho de Winchester.